Xeroderma, doença rara que acomete
trabalhadores rurais de uma pequena cidade goiana, desperta interesse de
cientistas e mobiliza solidariedade maior que a demonstrada pelo
estado
Renato Alves Enviado
especial
Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
Várias vezes ao dia, Gleice passa protetor solar
no filho Alison Wendel, que só pode brincar durante a noite: “Não quero
que o meu filho tenha o mesmo destino de tantos primos e
tios”
Faina (GO) — Raro fenômeno genético revelado em reportagens
publicadas pelo Correio em outubro do ano passado demonstra ser muito mais
preocupante. Cientistas suspeitam ser três vezes maior o número de portadores de
xeroderma pigmentoso nascidos ou morando em Araras, distrito de Faina (GO), a
quase 500km de Brasília. A moléstia, transmitida de pai para filho, deixa a
pessoa hipersensível à luz, causa câncer, mutila e mata. Até agora, existe a
certeza de haver 21 doentes no povoado do noroeste goiano, além de dois parentes
deles vivendo nos Estados Unidos. Mas os casos podem chegar a 60. A confirmação
depende de exames em análise na Universidade de São Paulo (USP). Nas últimas
cinco décadas, 20 pessoas com origem no lugarejo morreram em decorrência da
doença. Mais de 60 perderam a vida com os mesmos sintomas, mas não tiveram
diagnóstico médico. Em nenhuma outra parte do mundo houve registro de tamanha
incidência dessa enfermidade.
Após a denúncia do C orreio, mostrando em
série de reportagens como viviam e sofriam os doentes do povoado em função do
descaso do Estado, as autoridades goianas e a comunidade acadêmica decidiram
investigar o fenômeno e socorrer os portadores de xeroderma. Geneticistas da
Universidade de São Paulo (USP) e da Secretaria de Saúde de Goiás estudam o caso
há seis meses. Além de examinar os 21 pacientes de Araras, coletaram material
genético de todos os familiares dessas pessoas, gente sem manifestações da
doença, mas que tem tudo para adquiri-la. A equipe médica pretende identificar
casos suspeitos para realizar um trabalho preventivo a fim de evitar a
disseminação do xeroderma na comunidade e minimizar os efeitos nos novos
portadores.
Cerca de 200 famílias moram em Araras. A maioria é formada
por casamento entre parentes, principalmente primos. E é justamente essa cultura
que tem levado à perpetuação e proliferação do xeroderma na comunidade, pois
trata-se de uma enfermidade recessiva, mais comum entre nascidos de casamentos
consanguíneos (entre parentes), em que a chance de duas pessoas terem o mesmo
erro genético é maior. “A incidência média de casos no mundo é de um em cada
grupo de 200 mil pessoas. Temos mais de 20 num só povoado. É a maior
concentração da doença já registrada. O suficiente para merecer um estudo”,
destaca o biomédico geneticista Rafael Souto, da Secretaria da Saúde, integrante
da equipe que pesquisa o xeroderma em Araras.
Fenômeno com concentração
semelha nte à de Goiás ocorre em uma comunidade indígena da Guatemala. A maior
diferença desses doentes da América Central é que eles não vivem mais de 10
anos. Os de Araras conseguem chegar à fase adulta, mesmo sendo corroídos pelo
câncer ao longo do tempo. O grupo goiano tem pacientes de 7 a 77 anos. Esse
fator leva os cientistas a imaginar que se trata de uma mutação leve, agravada
por fatores ambientais, como a alta incidência solar. Sem aposentadoria por
invalidez, instrução, dinheiro e acompanham ento médico ideal, os doentes de
Araras passam a maior parte da vida expostos ao sol, pois sobrevivem da
agricultura e da pecuária. A região registra temperaturas entre 20ºC e 35ºC.
Este ano, enfrenta uma seca que já dura quase cinco meses.
Em março, um
geneticista da USP mediu a radiação solar nas casas de Araras e coletou material
para biópsia em seis pacientes. A ideia é mapear o gene defeituoso que provoca a
doença. Por ter origem genética, o xeroderma não tem cura, mas há como fre ar o
desenvolvimento da doença, revertendo o gene defeituoso das próximas gerações.
“O trabalho de mapeamento genético é demorado, e depois dele inicia-se a fase de
investigação de amostras de sangue dos pacientes”, explica Rafael Souto. A
mutação genética da família de Araras deve estar identificada dentro de um a
dois anos.
Acompanhamento O Correio publicou a primeira
reportagem sobre a presença da xeroderma nas famílias de Araras em 4 de outubro
de 2009. No entanto, somen te quatro meses depois autoridades goianas começaram
a tomar as primeiras providências para assistir os 21 moradores do vilarejo
portadores do mal raro e mortal. Por iniciativa do Ministério Público estadual,
representantes da área de saúde de Goiás organizaram uma força-tarefa para
atender os doentes. Desde então, unidos em uma associação, a Apoderma, que reúne
30 doentes — inclusive de outros estados —, os pacientes de Araras têm
conseguido maior atenção do Estado. A demora, no entanto, agrav ou o estado de
boa parte do grupo.
A equipe do jornal reencontrou os moradores de
Araras na última quinta-feira. Da primeira reunião realizada quase 10 meses
antes, dois estavam ausentes por causa de internação em Goiânia devido às
consequências dos cânceres gerados pelo xeroderma. “Nós tivemos avanços, mas
ainda falta muito a fazer por essa gente que ficou tanto tempo esquecida. Um
exemplo? Ninguém conseguiu prótese. E os que tinham não conseguiram trocar as já
vencidas”, comenta a pr esidenta da Apoderma, Gleice Francisca Machado, 34 anos.
Um dos casos mais graves é o de José Cláudio Machado, 74 anos. Ele já enfrentou
41 cirurgias para retirada de tumores. A cada uma, perdeu parte da pele.
Praticamente não tem mais rosto. Mas, no lugar de prótese, usa esparadrapos.
Gleice Machado lida com a doença há um ano, desde que o filho, Alisson
Wendel, teve a doença diagnosticada. Nesse período, as manchas se espalharam
pelo corpo do menino de 7 anos, mesmo ele trocando o di a pela noite. “Essa
doença já acabou com boa parte da minha família. Não quero que o meu filho tenha
o mesmo destino de tantos primos e tios, por isso comprei essa luta”, ressalta
Gleice. Apesar da pouca idade, o filho dela aprendeu a recusar os convites para
brincar sob o sol escaldante de Araras. Vive de camisa de manga comprida e boné,
passa filtro solar a cada duas horas e só sai de casa para andar de bicicleta,
jogar futebol ou vôlei quando a luz natural está no fim.
Diferentemen te
de Wendel, o trabalhador rural Adegmar Freire de Andrade, 31 anos, começou a se
cuidar apenas quando a doença estava em estado avançado. Quando, em meio às
visitas médicas realizadas por ordem do Ministério Público, soube do que sofria
e como se prevenir, passou a usar protetor solar regularmente e a vestir somente
camisas de manga comprida. “Muitos dos nossos tios sofreram ao longo de toda a
vida e morreram sem saber o motivo. Agora, com a informação trazida pelos
médicos, sei o que tenho d e fazer para tornar a minha vida melhor e cuidar dos
meus filhos caso eles também tenham xeroderma. Antes, tinha muito medo”,
comenta, para em seguida acrescentar que pretende ficar cada vez mais distante
do sol. “Hoje sei que meu trabalho me faz mal.” Adegmar tem o rosto tomado por
manchas e a visão prejudicada pelos efeitos da enfermidade diagnosticada desde
os 7 anos.
Resistência Nos primeiros meses após as
reportagens do Correio, a Secretaria de Saúde de Goiás resistia e m dar mais
atenção aos doentes de Araras. Afirmava não poder fazer nada além das consultas
e cirurgias para retirada de tumores dos pacientes. Negava até distribuição
gratuita de protetor solar. Sob pressão do Ministério Público, o órgão criou um
ambulatório só para os portadores de xeroderma, no HGG. Agora, os pacientes que
esperavam até dois meses para um atendimento médico fazem consultas semanais.
Mas o estado de Goiás e a Prefeitura de Faina ainda apresentam muitas
falhas. Os pac ientes conseguiram o transporte gratuito, fornecido pelo
município. Porém, ele contribui para o agravamento da doença. Na viagem de ida e
volta para consultas, cirurgias e internações em Goiânia, os doentes chegam a
passar oito horas em uma Kombi comum, sem ar-condicionado e vidros escuros. No
calor goiano, que tem beirado os 40ºC nessa época do ano, a perua se transforma
num forno de micro-ondas. A prefeitura alega não ter dinheiro para a compra de
outro carro.
Já o governo estadual, além de continuar sem doar filtro
solar, também não fornece roupas nem óculos adequados aos doentes. Os quase mil
frascos de filtro solar enviados a Araras foram doados por leitores do Correio e
empresários sensibilizados com o drama dos doentes, que também convivem com
sérios problemas de visão. “Os oftalmologistas vieram, mostraram o problema e
falaram que temos de usar óculos escuros, com grau e abas mais largas. Só
esqueceram que o povo daqui não tem dinheiro para comprar isso”, observa Cl
áudia Sebastiana Jardim Cunha, 32 anos. Ela e a irmã Vanda Ernestina, 36,
convivem com xeroderma desde crianças. Vanda sofreu mutilação por causa do
câncer de pele.
Mapeamento Os doentes de Araras são
estudados pelo Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo
(USP), o maior do país nesse segmento. Integra a equipe o maior conhecedor de
xeroderma pigmentoso no Brasil, o biólogo Carlos Frederico Martins Menck. Ele,
que estuda a doença desde 1976, esteve no povoado goiano para conversar e
examinar pacientes. Os pesquisadores montaram o heredograma — tipo de gráfico
que representa a herança genética de determinada característica dos indivíduos
representados — dos pacientes. O gráfico retrata as famílias que possuem pessoas
com suspeitas de xerodema pigmentos residentes em Araras.
Mal genético
O QUE É » O xeroderma pigmentoso é uma doença hereditária
caracterizada pela deficiência na capacidade de reverter (ou consertar)
determinados danos no DNA (material genético), em especial aqueles provocados
pela luz ultravioleta, presente na radiação solar.
OS SINAIS »
Lesões cutâneas estão presentes nos primeiros anos de vida, evoluindo de
forma lenta e progressiva, e são diretamente relacionadas à exposição solar. Aos
18 meses, metade d os indivíduos afetados apresenta alguma lesão cutânea nas
áreas de exposição solar; aos 4 anos, cerca de 75%; e aos 15, 95%. »
Os primeiros sinais clínicos iniciam-se em forma de eritema (vermelhidão da
pele produzida pela congestão dos capilares), descamação, hiperpigmentação
difusa e lesões cutâneas semelhantes a sardas.
OS DOENTES »
Por ser uma doença recessiva, o xeroderma é mais comum entre nascidos de
casamentos consanguíneos — em que o risco de duas pessoas terem o mesmo erro
genético é maior. » O xeroderma pigmentoso apresenta grande
heterogeneidade genética, ou seja, diferentes famílias podem apresentar o mesmo
quadro clínico, que pode ser causado por mutações em genes diferentes. »
A doença afeta ambos os sexos, apresentando maior prevalência nas populações
com elevada taxa de consanguinidade, como japoneses, árabes e judeus.
OS EFEITOS » Devido à deficiência no mecanismo de reparo do
DNA, os pacientes com xeroderma apresentam elevada fotossensibilidade e
desenvolvem precocemente lesões degenerativas na pele, como sardas, manchas e
diversos cânceres epidérmicos. » O risco de desenvolvimento de câncer
de pele é aumentado em mil vezes, e a incidência de cânceres internos, em 15
vezes. Indivíduos com xeroderma podem apresentar anormalidades neurológicas
progressivas (observadas em cerca de 20% dos casos) e alterações nos olhos.
» Aproximadamente 80% dos indivíduos com xero derma apresentam
alterações oftalmológicas que incluem fotofobia, conjuntivite, opacidade da
córnea e desenvolvimento de tumores oculares. » Cerca de 20% dos
pacientes têm alterações neurológicas como microcefalia, ataxia (perda de
coordenação dos movimentos musculares voluntários),surdez neurossensorial e
retardo mental. » Em pacientes com xeroderma há aumento do risco de
outros tumores cerebrais, gástricos, pulmonares e leucemia.
A
PREVENÇÃO » A preca ução mais importante para o doente é proteger-se da
exposição à radiação ultravioleta. O paciente deve evitar atividades externas
durante o dia, usar barreiras de proteção como roupas especiais, bloqueador
solar, óculos escuros e chapéu.
Como ajudar
Quem quiser ajudar os
doentes de Araras deve ligar para Gleice Francisca Machado, no telefone público
do povoado:
(62) 3391-1174 — ou enviar mensagem para gleice.araras@hotmail.com.