Pesquisadores
do Grupo Santa Casa, de Belo Horizonte, em parceria com a UFMG e a Funed,
avaliam a ação da toxina da aranha-armadeira, que tem potencial analgésico maior
que o da morfina
Vanessa Jacinto
Arte de Valf sobre foto de Jackson
Romanelli/EM/D.A Press
Belo Horizonte — A picada da aranha-armadeira traz
transtornos para suas vítimas. Além de dor imediata e severa, que, normalmente,
irradia para o membro atingido, é comum ocasionar inchaço e dormência local,
aumento dos batimentos cardíacos, elevação da pressão arterial e agitação
psicomotora. Contudo, é a partir de experiências bem-sucedidas com o seu temido
veneno que um importante medicamento analgésico poderá entrar no mercado num
futuro próximo. Graças ao poder da toxina, será possível tratar diferentes
tipos de dores, como aguda, crônica, inflamatória, cirúrgica, neuropática (comum
nos diabéticos) e, inclusive, aquela induzida pelo câncer.
“O setor
farmacêutico procura um agente terapêutico efetivo para a dor, que não provoque
tantos efeitos colaterais quanto produzem as drogas já existentes no mercado”,
avalia Marcus Vinícius Gómez, professor da pós-graduação do Instituto de Ensino
e Pesquisa (IEP) do Grupo Santa Casa, em Belo Horizonte . Segundo ele, alguns
laboratórios já se mostraram interessados em dar início aos testes clínicos em
humanos com a toxina que foi purificada na Fundação Ezequiel Dias (Funed) e
cujas ações farmacológicas foram por ele estudadas em parceria com a
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Concluída essa etapa, o caminho é
partir para a produção efetiva de um novo medicamento, que terá produção
garantida graças à obtenção da toxina recombinante (desenvolvida em
laboratório), que repete os efeitos analgésicos do veneno natural da aranha.
A ação terapêutica da substância retirada da armadeira (Phoneutria
nigriventer), patenteada com o nome de Ph-alfa-1beta, vem sendo estudada há
cerca de 15 anos pelos pesquisadores mineiros. Nas experiências básicas,
avaliou-se seu comportamento em diversos modelos de dor. Os resultados mostraram
que ela é mais potente em seu efeito analgésico do que a morfina e, além disso,
sua ação dura mais, cerca de 24 horas. Esses resultados possibilitara m que o
grupo de pesquisadores publicasse a pesquisa na revista Pain, de grande renome
no meio científico, especialmente no que se refere a estudos relativos à dor.
Os cientistas também demonstraram que a toxina atua em dois alvos
terapêuticos da dor, tornando-se a única no mercado a atingi-los. Além disso, na
comparação com a droga Prialt, recentemente liberada para uso humano nos Estados
Unidos, observaram que o veneno da aranha provoca menos reações adversas. Se
comparada com a morfina, a toxina da armadeira ainda traz a vantagem de não
desenvolver tolerância, ou seja, ela exerce sua ação analgésica
independentemente do número de vezes que é aplicada, o que não ocorre com a
morfina.
Segundo Gómez, a toxina da aranha age impedindo a entrada de
cálcio nos terminais nervosos e, consequentemente, inibindo a liberação do
glutamato, um neurotransmissor presente no líquor da medula espinhal. Nesse
aspecto, os pesquisadores mediram a concentração de glutamato no processo
doloroso e observaram que a toxina da aranha era mais potente em diminuir o
glutamato do líquor da medula espinhal do que os analgésicos atualmente em uso.
O professor afirma que, no veneno de aranha, foram isoladas outras duas
toxinas. Uma nas arritmias cardíacas e outra nas isquemias cerebral e da retina.
No caso da isquemia, a toxina seria responsável por proteger a célula da morte
induzida pelo choque isquêmico. No estudo da isquemia da retina, projeto
desenvolvido pelo IEP em parceria com a Clínica Oftalmológica da Santa Casa,
verificou-se que a toxina atua provocando regeneração das células que foram
comprometidas.
Já nas pesquisas envolvendo arritmias cardíacas, que
estão sendo realizadas em parceria com pesquisadores do Instituto de Ciências
Biológicas (ICB) da UFMG, os resultados demonstram que a ação da toxina envolve
o aumento da liberação da acetilcolina, neurotransmissor que atua no sistema
nervoso central. As toxinas envolvidas nos três estudos foram purificadas na
Funed e deram origem a duas patentes. Uma terceira está sendo solicitada pelos
pesquisadores.
Mecanismo da dor » Durante um processo de dor, ocorre o
aumento da entrada de cálcio e da liberação do neurotransmissor excitatório
glutamato no líquor da medula espinhal. Esse aumento sensibiliza receptores no
cérebro, que respondem com a sensação de dor
Controle »
Agentes analgésicos (morfina e a toxina da aranha, por exemplo) diminuem a
liberação de glutamato, fazendo com que o cérebro seja menos estimulado e,
consequentemente, iniba a sensação de dor
Comparação entre morfina e
toxina da aranha » Em relação à morfina, a toxina da aranha-armadeira
não desenvolve o fenômeno de tolerância (deixar de produzir efeito na dor). Além
disso, a toxina tem ação mais duradoura, cerca de 24 horas, enquanto o efeito da
morfina dura em torno de 4 a 5 horas. Outra vantagem é que a substância provoca
menos reações adversas ao organismo