Artrite reumatoide, que atinge cerca de 1,8 milhão de pessoas no
Brasil, é marcada por dor intensa. Como chega a comprometer as funções dos
membros, a doença provoca preconceito e, muitas vezes, gera isolamento
Márcia Neri
Bruno Arantes/Esp. CB/D.A Press
Cleone, hoje com 56 anos, desenvolveu os primeiros
sintomas aos 24: aposentada precocemente, aprendeu a aceitar as
limitações
Dor na planta dos pés, dormência e rigidez nas mãos foram os
primeiros sintomas da artrite reumatoide sentidos pela bancária aposentada
Cleone Vasconcellos. A doença se manifestou quando ela tinha 24 anos. O
diagnóstico não tardou e medicamentos foram indicados, mas, ao contrário do que
ela imaginou na época, o problema avançou rapidamente. “Quando fui
diagnosticada, não sabia nada sobre a mazela. Pensei que tomaria remédios e
ficaria curada, voltaria a ter uma vida normal. Com o tempo, soube que não
seria bem assim”, lamenta.
Até meados da década de 1990, as drogas eram
paliativas, combatiam somente a dor e não impediam o avanço dos sintomas.
“Fiquei abalada e chorei muito. Jogava vôlei, estava no auge da juventude, era
uma pessoa ativa e fui, aos poucos, perdendo a força nos braços. Esse tipo de
limitação traz danos emocionais, porque incapacita para muitas coisas. É preciso
aprender a lidar com a nova realidade e isso é bem complicado”, revela. A
artrite reumatoide foi, aos poucos, afetando outras partes do corpo de Cleone. A
aposentadoria precoce foi inevitável, assim como as cirurgias para colocação de
próteses nos joelhos e no quadril. “Hoje, com 56 anos, a dor está controlada e
eu busco ter qualidade de vida, ainda que com limitações que não me permitem
ousar muito”, acrescenta.
A artrite reumatoide
é uma desordem autoimune, que leva à destruição das articulações e a
deformidades nas juntas. Embora o tratamento tenha evoluído drasticamente nos
últimos 15 anos, com terapias que bloqueiam a evolução do mal, a causa da doença
continua desconhecida e o problema ainda traz impactos emocionais, prejudicando
a produtividade e a vida social dos pacientes.
Um estudo conduzido pela
Mayo Clinic, nos Estados Unidos, revelou que, depois d e quatro décadas em
queda, a incidência da artrite reumatoide entre as americanas cresceu 2,5% por
ano entre 1995 e 2007. Com os homens, porém, ocorreu justamente o oposto. Houve
uma redução de 0,5% no mesmo período. Pesquisadores envolvidos no estudo,
publicado recentemente na revista Arthritis & Rheumatism, ainda buscam
respostas para o aumento no número de casos.
Estima-se que, no Brasil, a
artrite reumatoide atinja pelo menos 1,8 milhão de pessoas. A maioria delas,
mulheres em idade economicamente ativa. Em junho passado, dados de uma pesquisa
divulgada no Congresso Anual da Liga Europeia contra o Reumatismo, em Roma,
mostraram que a doença realmente pode isolar suas vítimas. O trabalho conduzido
pelo reumatologista Paul Emery, pesquisador e professor de reumatologia da
Universidade de Leeds, no Reino Unido, revelou que, embora medicadas, 72% das
mulheres diagnosticadas com a doença sofrem com dor.
As entrevistas
foram feitas por meio de formulários enviados pela internet em sete países,
incluindo França, Espanha, Alemanha, Itália, Estados Unidos e Canadá. “A
sensação dolorosa e a perda de função dos membros afetados ainda são os maiores
problemas enfrentados pelas pacientes. Confirmamos que o mal-estar físico
compromete tanto os aspectos emocionais que a vida social fica desestabilizada”,
explica Emery.
Segundo o especialista, as mulheres com artrite
reumatoide relatam sofrer com distanciamento e isolamento, tanto que 40% das
entrevistadas solteiras disseram ser mais difícil encontrar um parceiro e 22%
das separadas afirmaram que, de alguma forma, a doença influenciou a decisão de
dar fim ao casamento. O médico acrescenta que 68% das pacientes que responderam
os questionários escondem a dor das pessoas mais próximas.
Gatilhos O reumatologista Gustavo de Paiva Costa explica que
a artrite reumatoide, como todo mal autoimune, agride o próprio organismo. Nessa
doença, a sinóvia — um tecido protetor que cobre todas as articulações — é o
alvo do ataque. “A sinóvia inflama, causa dor e destrói as estruturas que ligam
músculos, tendões e ossos. As articulações de mãos, joelhos e punhos são as mais
acometidas, mas, eventualmente, outras partes do corpo também são afetadas”,
diz.
Os reumatologistas que atuam no Distrito Federal estimam que
existam cerca de 20 mil pessoas com artrite reumatoide na região da capital do
país. Não há estudos que comprovem se o problema está ou não afetando mais
indivíduos ao longo das últimas décadas.
De acordo com o médico Rodrigo
Aires, presidente da Sociedade de Reumatologia de Brasília, nos últimos 10 anos,
os medicamentos biológicos trouxeram grande avanço no tratamento. “Essas drogas
atuam nas substâncias que regulam o sistema imunológico e são importantes no
processo de inflamação e destruição das articulações, impedindo os desarranjos
articulares e o avanço da doença, o que não ocorria no passado”, explica.
Os medicamentos biológicos ainda não estavam disponíveis na época em
que Cleone foi diagnosticada. Para seguir em frente e não se abater ela buscou
auxiliar quem não tem recursos para tratar o problema e atualmente faz parte da
diretoria da Associação Brasiliense de Pacientes Reumáticos (Abrapar). “As
deformidades vieram, passei por cirurgias para colocar próteses nos joelhos e no
quadril. Apesar de tudo, tenho sorte. Conto com o apoio do meu marido e posso
comprar os medicamentos. Além disso, busco terapias que não me deixam travar de
vez. No Brasil, nem todos têm acesso a tanto”, reclama.
A estudante de
psicologia Laís dos Santos Vargas, 21 anos, também tratou de ir à luta para
vencer os desafios trazidos pela AR. “Fui diagnosticada aos 3 anos. As
articulações enrijeceram rapidamente, mas consegui tratar e levar uma vida
relativamente normal. Aos 10 anos, porém, caí e quebrei o fêmur. Os 90 dias de
gesso foram responsáveis pela perda da força e do equilíbrio, e não consegui
mais andar”, revela. No entanto, a cadeira de rodas não afastou Laís do convívio
social. Hoje, ela é digitadora no Colégio Marista, onde também procura
conscientizar alunos e professores sobre a doença. “Demorei a aceitar, me isolei
por um tempo. Ainda sinto dores, mas sei que é preciso compartilhar minha
limitação para superar os desafios e lidar com a doença de forma digna”,
avalia.
A sensação dolorosa e a perda de função dos
membros afetados ainda são os maiores problemas enfrentados pelas pacientes.
Confirmamos que o mal-estar físico compromete tanto os aspectos emocionais que a
vida social fica desestabilizada”
Paul Emery,
reumatologista
Para saber mais Eterna
confusão
A artrite reumatoide geralmente é denominada apenas artrite — e
muitas vezes confundida com a artrose. Na verdade, artrite é uma denominação
genérica de qualquer inflamação que atinja as juntas, podendo ser provocada por
lesões traumáticas, pela gota ou por bactérias. A artrose é o desgaste natural
que as articulações sofrem com o passar da idade. Cerca de 80% dos pacientes com
artrite reumatoide têm uma proteína circulando no sangue chamada fator
reumatoide. A presença dessa proteína no organismo ajuda os especialistas no
diagnóstico da doença. Porém sua ausência não elimina a possibilidade de o
diagnóstico ser positivo. Quanto maior a quantidade de fator reumatoide no
sangue, mais intensa é a doença. Em Brasília, portadores de artrite reumatoide
podem encontrar suporte na Associação Brasiliense de Pacientes Reumáticos. Os
telefones para contato são 3425-2662 ou 3327-8826.