Corrida e filas na época da campanha
de imunização contrastam com o excesso de doses nos postos de saúde até hoje:
mais de 8 milhões no total. População não sabe que pode tomar, se quiser, mesmo
que não esteja nos grupos prioritários
Carolina Khodr
Renata Mariz
Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Wherli estava em uma consulta quando foi informado
pelo Correio que poderia tomar a vacina e aproveitou para se imunizar: “Eu
não sabia”
Mais de oito milhões de vacinas contra o vírus H1N1 ainda estão
disponíveis nos postos de saúde do país. A sobra corresponde ao gasto de R$ 92
milhões — 4,3% do investimento total do governo contra a pandemia. Na campanha
de vacinação que teve início em março deste ano, cerca de 88 milhões de pessoas
foram imunizadas. A meta do Ministério da Saúde foi vacinar ao menos 80% do
grupo de risco — gestantes, portadores de doenças crônicas, crianças com mais de
6 meses e menos de 2 anos de idade, e também trabalhadores de saúde e população
indígenas.
Diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia, Marcos
Antonio Cyrillo, considerou alta a quantidade de vacinas que ainda restam nos
postos de saúde: “Essas doses devem ser aproveitadas logo, já que o vírus da
influenza sofre variações e no próximo inverno essa vacina pode não ter mais
efeito”. Já o pneumologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade
de Brasília Ricardo Martins considera normal a sobra de vacina, em função da
adesão em alguns grupos não ter chegado a 100%. A sugestão do médico é a de que
o governo aproveite os lotes restantes para imunizar as populações que não
receberam as doses ou iniciar uma nova campanha na Região Norte.
O
Brasil gastou R$ 2,1bilhões no combate ao vírus responsável pela gripe A. Mais
da metade desse montante (1,3 bilhão) foi destinado à compra de 113 milhões de
doses da vacina.
De acordo com o diretor de vigilância epidemiológica
do Ministério da Saúde, Eduardo Lage, o Brasil seguiu as recomendações da
Organização Mundial da Saúde (OMS). “O principal desafio foi organizar uma
campanha de vacinação bastante complexa.”
Aproveitar a viagem
De acordo com o Ministério da Saúde, as vacinas que sobraram não
foram recolhidas dos postos de saúde e estão disponíveis para aqueles que não se
vacinaram na época da campanha mesmo que não se enquadrem nos grupos de risco.
Mas essa informação não é divulgada. Wherli Moura, 17 anos, estava em consulta
no Posto de Saúde nº 6, no Distrito Federal, em companhia da mãe quando foi
informado pelo Correio que naquela unidade restavam vacinas disponíveis. “Minha
mãe já tinha tomado a vacina porque tem problemas respiratórios, mas eu não
sabia que podia tomar agora”, conta. Aconselhado pela mãe, o estudante
aproveitou a oportunidade e tomou a vacina, sem enfrentar nenhuma fila. Só nesse
posto, localizado na 605 sul, estão disponíveis mais de 300 doses.
Em
2009, foram registrados 46,1 mil casos graves da doença e 2.051 mortes. Enquanto
este ano, até 31 de julho, 753 pessoas com gripe A precisaram de internação e 95
morreram. De acordo com a OMS, o vírus continua em circulação no mundo, mas em
conjunto com outros vírus sazonais, como a gripe comum. Diferentemente do que
ainda ocorre em países como Índia e Nova Zelândia, o Brasil está fora do estado
de epidemia. Mas a OMS alerta que o monitoramento e as ações preventivas contra
a disseminação do vírus devem continuar, especialmente no cuidado com as
gestantes, os portadores de doenças crônicas e os menores de dois anos, grupos
dos mais vulneráveis à doença. Cyrillo acredita que a cobertura da campanha de
vacinação foi eficiente, mas critica a infraestrutura do sistema de saúde e a
falta de pessoal no atendimento à população. “Tinha gente que esperava quatro
horas para ser atendida”, conta. Mas diz que o desafio maior está na educação do
povo. “É necessário que a população tenha bons hábitos de higiene”, diz. (CK e
RM)
Memória Depois da mutação
Em abril de 2009, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou o
mundo sobre o surgimento da Influenza A (H1N1). Chamado na época de gripe suína,
o vírus, que antes só era transmitido entre os porcos, sofreu mutação com outros
três tipos de gripe (duas humanas e uma aviária) e passou a infectar os seres
humanos.
Desde a época em que foi descoberta, a gripe A matou mais de 18
mil pessoas em 214 países. A OMS temia que esse número pudesse chegar a 7
milhões. Este mês foi declarado o fim da pandemia e apenas alguns países, como a
Índia, ainda estão em situação de epidemia. (CK e RM)