É só ouvir que seu filho precisa fazer um
exame de sangue que você se descabela? Saiba como tornar o momento menos
assustador para os pequenos
Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press
Rafaela, de apenas 3 anos, já tira de letra a
coleta de sangue: a mãe, Suleima, sempre a acompanha nos
exames
Fazer uma visita ao pediatra não parece tão assustador para algumas
crianças, a não ser que o médico resolva pedir os três exames básicos para
conferir a saúde dos pequenos: o de fezes, o de urina e o mais temido de todos —
o de sangue. A ida ao laboratório torna-se, então, sinônimo de grito, choro e
muito drama. Diante de tanto desconforto em um momento indispensável, é possível
os pais terem esperança de que o filho enxergue o exame de uma forma menos
pavorosa? Segundo especialistas, sim. Embora a picadinha da agulha não possa
ser evitada, existem técnicas para tornar a experiência menos traumática e até
divertida.
As amostras dos exames básicos em crianças geralmente são
pedidas quando supostamente há algo de errado, assim como nos adultos. Segundo a
farmacêutica e bioquímica Sílvia Leal, até completar um ano, os pequenos
pacientes devem ir ao pediatra ao menos uma vez por mês e, com um quadro de
saúde normal, não é necessário submetê-los a baterias de exames com frequência.
“Existem casos específicos que precisam de acompanhamento, é claro. Mas, no
geral, o desgaste de exames pode ser evitado quando está tudo bem.” A partir de
sintomas apresentados principalmente em consultas de emergência, porém, o
pediatra costuma pedir os exames, e é aí que a dor de cabeça da maioria dos pais
começa.
A psicóloga infantil Giovanna Guiotti dá uma dica que pode
ajudar nesse momento: os pais devem descrever a situação com o máximo de
realismo para a criança, principalmente para conquistar a confiança dela e
evitar um susto na hora H. “É natural que tenhamos medo do desconhecido. Por
isso, quando a criança sabe o que está por vir e entende o motivo de estar ali,
tudo fica mais fácil”, explica.
De acordo com Giovanna, duas técnicas
simples fazem toda a diferença na hora do exame de sangue. Para os menores, de
até seis anos, os pais podem simular o momento com o filho uma noite antes, mas
a criança deve fazer o papel de enfermeiro. “Dá para usar uma seringa sem
agulha, e o paciente pode ser um ursinho ou uma boneca. Os pais devem perguntar
se o paciente está sentindo dor e o que eles podem fazer para que ele se sinta
melhor”, explica a psicóloga. “No dia seguinte, quando vivencia aquela situação,
a criança estará mais tranquila.”
Com os maiores, de até 10 anos, a
psicóloga recomenda que os pais descrevam tudo: quem vai colher o sangue, a cor
da roupa da enfermeira, o laboratório. “Quanto mais ele souber dos detalhes,
mais ele vai se sentir confortável quando chegar para fazer o exame”, orienta.
Para a especialista, o importante é conhecer as preferências da criança — se
quer dar a mão, sentar no colo, não olhar para a seringa — e respeitá-las. “Elas
devem saber que adultos também não gostam da situação, que não são as únicas a
sentir medo.” Outra dica interessante é pedir ao enfermeiro que ele narre tudo
para a criança na hora de colher o sangue.
Como deixar seu filho tranquilo
Não minta sobre a dor nem fuja do assunto. Diga que dói, mas que é rápido e
necessário.
Com os mais novos, simule uma coleta na noite anterior ao exame. Ele é o
enfermeiro e um bichinho de pelúcia pode ser o paciente. Aproveite para
descobrir as preferências dele para a hora da coleta.
Com os mais velhos, descreva com o máximo de realismo como é o exame. Se
possível, peça para o enfermeiro narrar passo a passo o que está fazendo.
Pergunte como ele prefere: se quer que segure na mão, se não quer olhar para
a agulha, se quer que cante uma música.
Após a coleta, pergunte como ele se sente e o parabenize pela coragem.
Nada de chororô
Para quem não acredita que existe criança tranquila durante o exame
de sangue, Rafaela Ramos Rocha, 3 anos, é um exemplo e tanto. Embora não entenda
o motivo de estar no laboratório, ela é só alegria no espaço infantil destinado
aos pequenos pacientes. “Eu deixo claro para ela que uma pessoa vai furar o
bracinho e tirar o sangue, não minto. Ela sabe como é e não costuma se comportar
mal”, diz a mãe, a supervisora de vendas Suleima da Cruz, 26 anos.
Pelo
jeito, o método da mãe dá certo. A pequena surpreende até os enfermeiros que
costumam atendê-la sempre. Ela nasceu prematura e precisa de acompanhamento, por
isso faz o exame com frequência. Para Suleima, estar com a filha e participar de
tudo é fundamental. “Ela sempre senta no meu colo durante a coleta”, conta.
Enquanto o enfermeiro retirava o sangue, Rafaela acompanhava a mãe e uma
auxiliar de enfermagem cantando uma música infantil.
O espaço infantil
do laboratório, criado para que as crianças se distraiam antes dos exames,
costuma ser colorido e equipado com brinquedos para todas as idades. Um kit de
lanchinho, com lembrancinhas e um certificado de coragem, também é entregue aos
pequenos valentes.
Os principais exames infantis
Teste do pezinho
É obrigatório em qualquer unidade de saúde do país. Deve ser realizado entre
as 48 horas e o sétimo dia de vida. Feito a partir de um furinho no calcanhar,
pode detectar precocemente até 45 doenças metabólicas, genéticas e infecciosas
capazes de causar alterações no desenvolvimento psicomotor do bebê. Entre elas,
o retardo mental, que, muitas vezes, só é diagnosticado na fase escolar. Quando
descobertos cedo, problemas como hipotireoidismo congênito, fenilcetonúria
(ausência de uma enzima específica) e hemoglobinopatias (alterações genéticas)
podem ser tratados, e uma série de sequelas evitada. O teste, porém, não detecta
dificuldades relacionadas à glicemia em alguns problemas, como síndrome de Down.
Curvas funcionais
Identifica aspectos hormonais e funcionais do organismo relacionados ao
desenvolvimento. A partir de duas coletas de sangue, com intervalo de duas
horas, é traçada uma graduação em que podem ser detectados problemas de
crescimento, de puberdade precoce ou retardada.
Teste de cloreto de suor
A partir da coleta do suor, identifica a fibrose cística, doença que afeta
as glândulas exócrinas, responsáveis pelo muco e pelo suor. É a causa mais comum
de doença pulmonar crônica em crianças.
Agradecimentos: Clínica Infantil do
Príncipe, Exame Medicina Diagnóstica e Instituto de Psicologia Aplicada (InPA).