Fitness & Nutrição
Sabor especial

Ter alergia ou intolerância a determinados ingredientes não serve como desculpa para fazer as refeições sem gosto


Sair com os amigos para comer uma pizza, tomar uma cerveja no fim do expediente ou um inocente sorvete no meio da tarde. Programas tão rotineiros podem tornar o ato de comer fora de casa um obstáculo e tanto para quem tem alergia ou intolerância a certos tipos de alimentos. Das mais simples (como alergia a amendoim, castanhas ou frutos do mar) às mais complexas (como a doença celíaca ou a diabetes), as restrições alimentares estão por toda parte. Mas isso não significa que as pessoas acometidas por elas tenham que virar reféns das refeições sem gosto ou abrir mão de seus alimentos prediletos: basta adicionar à receita informação, acompanhamento médico e, claro, criatividade.

Dependendo dos sintomas, reações adversas a alimentos são classificadas em dois grandes grupos muito conhecidos, mas que ainda podem causar confusão. Na alergia ou hipersensibilidade alimentar, o sistema imunológico interpreta alimentos aparentemente inofensivos como ameaças ao organismo. De acordo com a nutricionista Gislene Alves Pereira, casos de alergia a alimentos específicos não apresentam sintomas exacerbados, mas, uma vez diagnosticados e tratados, podem ajudar a resolver problemas que não estão, necessariamente, ligados à alimentação. “Às vezes, dores articulares ou enxaquecas são ocasionadas por hipersensibilidade a alguns alimentos”, exemplifica a também especialista em nutrição clínica funcional. Alimentos com alto teor de proteína, especialmente os de origem mineral ou marinha, são os que mais causam reações alérgicas.

O outro grupo é o da intolerância alimentar, na qual o processo não envolve o sistema de defesa do corpo. O que acontece é a falta de enzimas específicas para digerir alguns alimentos. “As moléculas do leite e do glúten, por exemplo, são grandes demais para algumas pessoas e as enzimas não conseguem quebrá-las”, explica a nutricionista. “É como tentar colocar 12 pessoas dentro de uma quitinete.” Conservantes, corantes, antioxidantes e intensificadores de sabor — presentes em grande parte da comida comercializada em restaurantes e supermercados — também significam dor de cabeça para pessoas mais sensíveis. “Quase 80% dos pacientes que me procuram têm hipersensibilidade a algum alimento. Geralmente, são os que contêm glúten”, estima Gislene Pereira.




Contém glúten

Mas como contornar a restrição alimentar? Para a chef Alice Mesquita, o principal deve ser sempre o cuidado com o preparo dos alimentos. Pratos para pessoas que não podem ingerir frutos do mar ganham atenção redobrada. “Tomo cuidado para que nem um talher que tenha encostado em um fruto do mar entre em contato com a comida de quem tem alergia.” Entre os pratos especiais mais pedidos, os que dispensam leite ou derivados, como manteiga ou queijo, estão no topo da lista de demandas do restaurante. Ela calcula que 10% das encomendas são de clientes que desejam deixar algum ingrediente de fora — seja por problemas de saúde ou pela vontade de consumir alimentos mais saudáveis.

Outra dica é investir em substituições para adaptar a dieta a cada condição. Diabéticos podem incluir mais fibras vegetais na dieta, como lentilhas, legumes, verduras e aveia, uma vez que elas ajudam a estabilizar os níveis de glicose no sangue, por exemplo. Mas, ainda que pareça contraditório, Alice Mesquita acredita que, na hora de pensar em um prato, a doença celíaca (em que o paciente não pode consumir alimentos derivados do trigo, aveia, centeio, cevada e malte) leva vantagem pela variedade de opções. A chef conta que passou três meses sem glúten, e que a experiência a ajudou a encontrar alternativas para a restrição. “Dá para usar muitas coisas no lugar da farinha branca, como batata, todos os tipos de purê, maisena e farinha de mandioca”, enumera.

Em uma rápida busca na internet, é possível encontrar sugestões de pratos e substitutos para alimentos que fazem falta na rotina, como o pão nosso de cada dia, no caso dos celíacos. Outra opção é apostar em produtos industrializados sem o agente causador da alergia na fórmula. Janine Franzner, engenheira de alimentos de uma marca que comercializa farinha e macarrão sem glúten, diz que o hábito de mudar a alimentação pode ser uma boa até mesmo para quem não tem problemas alimentares. “Geralmente, quanto tem uma pessoa celíaca na casa, todos viram. Não por necessidade, mas por opção, para não ter que cozinhar comidas diferentes”, comenta. “Hoje, os alimentos sem glúten não são como antes, que eram como remédio, sem gosto. Isso facilita para o resto da família”, compara.





Risoto de galinha d’angola (sem lactose e sem glúten)
Fotos: Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press
Encontrar receitas gostosas e sem lactose pode parecer uma missão quase impossível. Para servir como inspiração, a chef Alice Mesquita, a pedido da Revista, criou uma receita que agrada a gregos e troianos — ou melhor, intolerantes a lactose e glúten.
 

Vinho
Cebolinha
Frango
Tomate seco
Alho
Cebola

Galinha d’angola

  • 1 galinha d’angola limpa cortada pelas juntas
  • Sal e pimenta-do-reino a gosto
  • 2 cebolas raladas
  • 2 dentes de alho amassados
  • 1 colher (sopa) de cúrcuma ou 1 colher (café) de açafrão italiano em pó
  • 200ml de vinho branco seco
  • 50ml de azeite de oliva extravirgem
  • 100ml de caldo de ave
  • l Tempere a galinha de véspera com sal, pimenta, alho, cebola e açafrão.
    No dia seguinte, aqueça a manteiga e o azeite e doure a galinha.
    Adicione o vinho e o caldo e cozinhe em fogo baixo até que a carne esteja macia. Retire a pele e os ossos, desfie a carne e reserve.




    Risoto
  • 360g de arroz arbóreo (90g por pessoa)
  • 1 fio de azeite de oliva
  • Sal e pimenta-do-reino a gosto
  • 2 colheres (sopa) de cebola picada
  • 1 1/2 litros de caldo de legumes ou de carne ou de frango, bem quente, quase fervente
  • 150ml de vinho branco seco
  • Salsa picada

    Preparo
  • Em uma panela grande, de boca larga, esquente o azeite. Doure a cebola, acrescente o arroz, mexa bem, adicione sal e pimenta-do-reino. Quando estiver bem refogado, acrescente o vinho branco seco. Mexa sem parar até que o vinho seja absorvido pelo arroz.
  • Adicione, então, uma concha de caldo e vá mexendo para que o arroz solte o amido e fique bem cremoso. À medida que o arroz for secando, coloque mais uma concha de caldo. Junte a galinha d’angola desfiada.
  • Mexa sem parar até que o arroz fique al dente, ou seja, com um pontinho mais firme no meio do grão. Ao fim do cozimento, aproximadamente uns 20 a 25 minutos, acrescente uma colher (sopa) de azeite e misture bem. Bata bem com colher de pau. Sirva imediatamente polvilhado com salsa picadinha. A receita serve quatro pessoas.



    Na rede

    Pessoas que sofrem restrições alimentares podem encontrar informações, dicas, depoimentos e receitas em alguns sites especializados. Veja algumas opções:

  • No site Vida Sem
    Glúten e Alergias (vidasemglutenealergias.com), os celíacos encontram dicas de saúde, receitas e notícias recentes sobre a doença.

  • No endereço eletrônico da Associação dos Celíacos do Brasil (acelbra.org.br), os pacientes têm acesso a estatística s, contatos de médicos parceiros, endereços de reuniões e datas de eventos realizados pela associação.

  • Para quem tem intolerância a lactose, o site Sem Lactose (semlactose.com) traz informações, notícias, receitas e dicas de produtos sem leite.

  • A Associação Nacional de Assistência ao Diabético (anad.org.br) é uma instituição filantrópica que atende e orienta pessoas com diabetes. Além de informações e receitas, o diabético pode marcar consultas, testes e assistir a palestras com os profissionais que fazem parte dos nove departamentos da associação.

    Agradecimento: Restaurante Alice Brasserie