A redescoberta do câncer

A ciência nunca esteve tão perto de desvendar os mistérios dessa doença, descrita desde a Idade Média. Veja como evoluíram, nos últimos 30 anos, as pesquisas, os exames e as técnicas cirúrgicas para diagnosticar e tratar o problema

  • » Flávia Duarte

    Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press
    Ana Alice convive com o câncer há 10 anos. Devido ao seu problema, parentes fizeram o teste genético e tiraram preventivamente parte do intestino
     

    Para entender o câncer, é preciso saber que as células humanas são renovadas diariamente. Nesse processo, volta e meia ocorre algum erro. O organismo jovem e saudável normalmente está apto a resolver o problema. O preocupante é quando o corpo envelhece e perde a capacidade de corrigir as falhas. A dificuldade é ainda maior por causa das agressões externas, que aceleram o processo de mutação celular, provocando o câncer. Na lista de malfeitores estão a alimentação inadeq uada, o cigarro, o álcool, bactérias, vírus e herança genética.

    “O câncer já pode ser considerado uma doença crônico-degenerativa. Ela faz parte do processo do envelhecimento”, considera o médico Murilo Buso, oncologista do Centro de Oncologia e Hematologia de Brasília (Cettro). Logo, o aumento da expectativa de vida é proporcional às chances de desenvolver a doença. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), em 2010 serão quase 500 mil novos casos. Em outra análise, significa dize r que dois em cada mil brasileiros terão algum tipo de câncer em 2010. Desses, 52% atingirão as mulheres e 48%, os homens. Hoje, é a segunda causa de morte no Brasil e, até 2020, ocupará o primeiro lugar entre as doenças que mais matam.

    Para reverter esse quadro, a ciência se debruça em pesquisas, tanto para descobrir as causas de certos tipos de câncer e apontar meios de prevenção quanto para desenvolver tratamentos mais eficientes. “O câncer é descrito desde a Idade Média, mas hoje p odemos dizer que estamos vivendo o melhor momento de conhecimento sobre a doença. Já sabemos que o câncer, na verdade, não é uma doença, mas várias com a mesma característica de proliferar de maneira desordenada e capacidade de invadir outros tecidos”, explica Murilo Buso. “Mas ainda temos que responder questões como ‘o que faz a célula proliferar?’, ‘por que nosso sistema de defesa não a destrói?’, ‘se o sangue é um meio hostil, por que ela não morre?’”, acrescenta.

    Na busca por respo stas, a tecnologia é aliada. Os novos exames conseguem mostrar com uma precisão enorme como as células cancerígenas trabalham, o que facilita o tratamento. “Isso permite a individualização e a personalização do tratamento. Uma paciente que tem câncer de mama será tratada de maneira diferente de uma outra mulher com o mesmo diagnóstico”, explica o médico Carlos Gil Ferreira, do Inca.

    Além dos exames, novas pesquisas, medicamentos e procedimentos cirúrgicos aumentaram, nos últimos 30 an os, as chances de cura e a qualidade de vida nos casos em que a doença ainda não pode ser vencida. Para saber quais as perspectivas do tratamento e da prevenção dos tumores, a Revista visitou clínicas, laboratórios, salas de exames, além de conversar com biólogos, médicos, físicos, químicos. Todos, parte do time de especialistas que lutam para encontrar um fórmula contra o câncer. Ainda conversamos com gente como Ana Alice, Arnaldo e Dirce, que superaram a doença ou convivem com ela há anos, gr aças aos medicamentos e aos exames cada vez mais modernos.


    Autoestima preservada
    Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press
    Além do apoio do marido e do filho, Dirce contou com o avanço da medicina: reconstrução da mama no mesmo momento da retirada
     

    A artesã Dirce Macedo, 38 anos, é bonita e vaidosa. Há cinco anos, quando teve um câncer, contrariando todas as previsões por causa da pouca idade, enfrentou bravamente o tratamento, a quimioterapia, a perda dos cabelos e da mama. Nesse caminho, contou com o apoio do marido, Luciano Segredo, e do filho, Júnior, hoje com 9 anos. “Me lembro que cheguei em casa com o cabelo raspado e pensei que ele fosse estranhar. Mas meu filho me olhou e disse: ‘Mamãe, você está linda’”, relembra, emocionada. Para não sentir as náuseas provocadas pelo medicamento, nem deixar o organismo ainda mais fragilizado, Dirce se alimentava muito bem, mesmo sem apetite, como é comum acontecer. Aos poucos, o tumor foi controlado e ela pôde se sentir curada. Para evitar que a doença voltasse, retirou um seio. Com vestido de malha bem ajustado ao corpo, fisicamente não há sinais da cirurgia. “O resultado ficou ótimo. Para reconstruir a mama, retirou-se a pele da barriga e com a pele da pálp ebra a médica fez a aréola”, conta a moça, que contou com uma cirurgiã plástica nesse processo.


    Para a pele, nanotecnologia

    As invisíveis partículas criadas pela nanotecnologia se tornaram aliadas no tratamento do câncer. O Departamento de Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP Ribeirão Preto desenvolveu um creme que, ao ser ativado pela luz, combate as células que provocam o câncer de pele. O tratamento foi testado em três ambulatórios do país, em 350 pacientes. Em Brasília, está sendo usado no Hran, em parceria com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, da Unive rsidade de Brasília.

    “O inovador é a utilização de nanotecnologia no desenvolvimento do creme. Ela usa componentes 70 milhões de vezes menores que um fio de cabelo”, explica Antônio Cláudio Tedesco, coordenador do grupo de Fotobiologia e Fotomedicina da USP Ribeirão Preto, responsável pelo projeto. “O veículo de nanotecnologia aumenta a penetração e a eficiência do tratamento”, acrescenta a dermatologista Simone Karst, que faz as aplicações em Brasília.

    Com o uso da luz, pro voca-se uma série de reações químicas que produzem radicais livres (moléculas instáveis). São eles que levam à necrose dos vasos que alimentam o tumor, que morrem por falta de nutrientes. Os resultados mostram que 95% do câncer de pele, menos melanomas, foram curados. “Já existem bons resultados para tratar outros tipos de câncer como bexiga, próstata e mama. Precisamos de estudos pré-clínicos, médicos e hospitais parceiros para transformarmos isso numa alternativa de tratamento a esses tumores ”, diz Tedesco.

    O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da UnB, em outro projeto de pesquisa, testou a terapia fotodinâmica (essas de nanopartículas de medicamentos ativados pela luz) em tratamentos de câncer bucal. Em animais, o sucesso foi de quase 90%. Agora eles esperam autorização da Anvisa para usar o medicamento em humanos.





    Em números

    » Os tumores mais comuns no sexo masculino são os de pele não melanoma (53 mil novos casos); próstata (52 mil); pulmão (18 mil); estômago (14 mil) e cólon e reto (13 mil).
    As mulheres são mais suscetíveis aos tumores de pele não melanoma (60 mil novos casos); mama (49 mil);
    colo de útero (18 mil); cólon e reto (15 mil) e pulmão (10 mil).




    Primeiro passo

    A primeira batalha contra o câncer é evitar que ele apareça. Para o médico Ademar Lopes, diretor de cirurgia pélvica do Hospital A. C. Camargo, em São Paulo, dos 500 mil novos casos de câncer por ano, mais da metade poderia ser evitada com diagnóstico precoce e tratamento adequado. O desafio é saber o que desencadeia o crescimento desordenado das células. “O maior fator de risco isolado é a idade. Entre 8% e 10% dos casos são hereditários e os demais são provocados por exposição a agentes físicos, químicos e biológicos”, alerta Ademar. Alguns deles são facilmente evitáveis, como o fumo, que causa o câncer de pulmão; o álcool, que tem relação com câncer de fígado, garganta e de esôfago. Evitar o sol é a medida para evitar o câncer de pele, por exemplo.

    Mas como prevenir os tipos raros, como o que atinge o pâncreas? Agressivo, representa 2% dos casos no Brasil e é responsável por quase 4% do total das mortes. “Há outros tipos, como o de estômago e o de intestino, que não têm uma causa definida. Por isso, há estudos internacionais que apostam na alimentação como a causa do problema e fazem testes para saber quais alimentos seriam cancerígenos”, comenta o médico Murilo Buso. Ainda não se sabe, por exemplo, quais os efeitos de uma exposição longa a alimentos enlatados e conservados.

    Em linha gerais, uma vida saudável resulta em um envelhecimento saudável e talvez em um organismo mais imune às mutações genéticas. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) publicou um novo relatório Políticas e Ações para a Prevenção do Câncer no Brasil: Alimentação, Nutrição e Atividade Física. No material está registrado que a combinação de alimentação saudável com atividade física é capaz de prevenir 63% dos casos de câncer de boca, faringe e laringe; 60% dos tumores de esôfago e 52% dos casos em que a doença atinge o endométrio. O Inca ainda revela que 41% dos tumores de estômago, 34% de pâncreas e 37% do intestino grosso poderiam ser evitados por meio da combinação de exercícios físicos e combate à obesidade.



    Detecção precoce

    Se o envelhecimento das células é impossível de se evitar, o caminho é tentar diagnosticar o câncer o quanto antes. Descoberto em um primeiro estágio, as chances de cura são infinitamente maiores, sem falar que reduz o risco de a doença se espalhar para outros tecidos. Os números não são otimistas e mostram que 80% dos pacientes fazem diagnóstico tardio, sobretudo nos tipos assintomáticos.

    Alguns métodos preventivos são bem conhecidos e recomendados, como os te stes que podem diagnosticar o câncer de próstata, colo de útero e o de mama. Disponível desde a década de 1980, a mamografia pode apontar os primeiros sinais do tumor. A recomendação é de que seja feita anualmente a partir dos 40 anos de idade. A pesquisa Câncer de mama — experiências e percepções, realizada pela Pfizer, com 320 mulheres em cinco capitais brasileiras, sendo 200 portadoras de câncer de mama e 120 sadias, mostra que apenas 29% das sadias seguem a orientação do médico, realizando a mamografia, e somente 33% fazem o ultrassom do seio quando solicitadas. “Já 81% das mulheres sadias fazem o autoexame sem saber que dificilmente conseguiriam detectar sozinhas um tumor de mama no estágio inicial”, afirma Sérgio Simon, coordenador da pesquisa e oncologista clínico do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.

    Outro dado que deixou os médicos preocupados é que 87% das portadoras e 61% das sadias entrevistadas associam a causa da doença a fatores emocionais, como o estress e. “Elas contrariam estudos científicos, que relacionam a doença a fatores como histórico de câncer de mama na família, primeira menstruação antes dos 11 anos, menopausa tardia (após os 50 anos), reposição hormonal, consumo excessivo de álcool, obesidade, ser mãe tardiamente ou não ter filhos.” O que demonstra que a falta de informação pode atrasar o diagnóstico e o tratamento, reduzindo as chances de cura.




    Exame que salva

    Como o câncer pode vir da herança genética, uma das formas de preveni-lo é saber justamente as chances de desenvolver a doença, apontadas no DNA. Desde o final do ano passado, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Oncogenômica do Hospital A. C. Camargo (Incito), em São Paulo, oferece testes genéticos que indicam uma predisposição do indivíduo a desenvolver tumores como, por exemplo, de mama, intestino e melanoma (pele).

    Os testes definem a sequência completa dos genes dos pacientes. Aqueles que apresentam mutações nos genes específicos, que podem causar a doença, realizam exames preventivos e um tratamento precoce. “São indicados para indivíduos e famílias que apresentam o diagnóstico bem estabelecido em algumas síndromes genéticas ligadas ao câncer. Dessa forma, será possível estabelecer de forma mais precisa o risco de desenvolvimento de alterações em possíveis portadores”, garantem os responsáveis pelo Instituto.

    Essa teria sid o a salvação de Ana Alice de Carvalho, 43 anos. Mas ela sequer desconfiava de sua probabilidade de desenvolver o câncer de intestino. “A gente nunca pergunta por que nossos antepassados morreram. Depois que tive o diagnóstico, descobri que algumas pessoas da minha família também tiveram a doença”, comenta.

    Há 10 anos, as fortes dores abdominais e a anemia persistente deram o alarme de que algo não estava bem. Naquela época, o primeiro diagnóstico foi apendicite. Ana Alice retirou o ap êndice e ainda assim as dores não cessaram. Depois de quase um ano buscando um diagnóstico, descobriu o câncer, que já havia se espalhado pelo fígado. Tirou o intestino e parte do fígado.

    A luta contra a doença não teve mais fim. Internações, sessões de quimioterapia e exames que diagnosticaram uma polipose hereditária. “Depois disso, muita gente da família fez o exame e deu positivo na propensão de desenvolver o câncer. Meu irmão e outros parentes retiraram parte do intestino preventi vamente”, conta. “Eu digo que adoeci para salvá-los”, acrescenta.

    Apesar dos momentos mais difíceis que já enfrentou, Ana garante que a fé em Deus e a serenidade ajudam a conviver com a doença há tantos anos. Ela diz que aprendeu, inclusive, a enfrentar preconceito: “Tem gente que pergunta se é contagioso”. Agora, o câncer está no pulmão e Ana Alice voltou para a quimio. “A cura depende da postura de cada pessoa. Eu ando, nado, danço, trabalho, nunca fumei na vida, saio com os amigos. Se fosse há alguns anos, teria morrido”, analisa, sempre muito otimista.



    Desistir, jamais!
    Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press
     

    O empresário Arnaldo Sonda, 63 anos, sempre se alimentou bem e levou uma vida saudável. Nunca fumou. Quando completou 50 anos, começou a fazer um check-up anual. No último, em junho do ano passado, a surpresa: um tumor no pulmão, que já tinha se espalhado para os ossos e o fígado. “Se não fosse meu hábito de fazer exames, até hoje não saberia da doença. Nunca senti nada.”

    Como o tumor é agressivo, o tratamento foi imediato. Sessões de quimioterapia, viagens ao Rio e a São Paulo em busca de outras opiniões médicas. Depois de oito sessões, o câncer dos ossos sumiu. Os do fígado e do pulmão reduziram. “Os médicos não falam em cura, mas em controlar a doença para transformá-la em um problema crônico, como o diabetes, que você possa conviver bem com ela.”

    Para aliviar os efeitos do tratamento e a baixa de imunidade provocada pela quimio, ele se alimenta bem e não parou de ir à academia. Também testa produtos, como os preparados de babosa, a frut a noni desidratada, comprimidos de ômega 3 e o mais badalado da atualidade: o avelós. “Leio muito e como aquilo que dizem combater o câncer. Se o médico diz que não faz mal, não vejo por que não tentar”, diz Arnaldo, que mantém o otimismo e a tranquilidade, essenciais no processo de cura.



    Em teste, o poder do avelós
    Kleber Lima/CB/D.A Press - 8/9/05
     

    A Euphorbia tirucalli é uma planta de origem africana encontrada no Norte e no Nordeste do Brasil que produz uma seiva semelhante ao látex. Ela está sendo pesquisada no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa e pode se tornar princípio ativo do primeiro medicamento nacional para o tratamento de câncer. Tradicional ingrediente de chás medicinais e garrafadas, atribuem-se à planta características antitumorais, ainda sem comprovações científicas.

    O avelós aguçou a curiosidade de um empresário nordestino, que viu a melhora de um familiar com câncer após tratamento com a planta. Há cinco anos, ele decidiu investir em pesquisas. Na fase pré-clínica — que inclui testes em células em cultura e em animais —, foram demonstrados resultados positivos em diversos tipos de tumores sólidos. A pesquisa passou então para a primeira fase clínica no IIEP, com duração de cerca de seis meses em seis pacientes. “O intuito dessa fase, que já está finalizada, era descobrir a dose máxima tolerada. Do látex da planta foi isolada a substância ativa, que virou uma pílula”, explica o médico Auro Del Giglio, gerente do Programa de Oncologia do Einstein e um dos coordenadores da pesquisa.

    A próxima fase — para testar a atividade do princípio ativo nas células tumorais — foi iniciada. O que se sabe é que o avelós inibe enzimas relacionadas à multiplicação dos tumores, além de ter potencial anti-inflamatório e analgésico. “Ainda não temos previsão sobre resulta dos. Pesquisas desse tipo geram muitas expectativas, mas antes de tudo é preciso comprovar a eficácia da planta”, completa Del Giglio. Especialistas recomendam consultar o médico sobre o uso da planta.



    Fonte: Informações no site www.hospitalalberteinstein.br.


    O tratamento, passo a passo

    Um exército de especialistas de todo mundo se dedica a descobrir formas de controlar o câncer. Para se ter uma ideia, muitos dos medicamentos disponíveis hoje não podiam ser aplicados ainda há 20 anos. O maior conhecimento do funcionamento do organismo, com os avanços na biologia molecular, genética, inclusive com o projeto Genoma, que em 2005 conseguiu sequenciar o DNA humano, foram fatores decisivos para dominar o funcionamento do câncer e as formas de combatê-lo.
    Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press
     

    1. Identificar o tumor

    Os exames estão cada vez mais eficientes, detalhados e com visibilidade inacreditável. Um salto nos últimos anos, se se considerar que a tomografia só se tornou acessível à maior parte da população na década de 1980. Hoje, as imagens tridimensionais ajudam os médicos a verem com nitidez a localização do tumor. “Esse exame nos dá informações anatômicas precisas. Mostra, inclusive, se é possível operar ou não o paciente”, diz o médico radio logista da Clínica Villas Boas Edgar Neto. Ele afirma, porém, que ecografia, radiografia e ressonância magnética, mesmo menos modernos, são essenciais para identificar alguns casos, como os cânceres de pulmão ou os localizados na região abdominal.

    O PET-CT
    A mais moderna tecnologia em diagnóstico por imagem ganhou o nome de PET-CET e chegou ao Brasil em 2003. Em 2000, foi eleita a invenção no ano pela revista Time. Em Brasília, apenas duas clínicas têm a máquina e cada exame custa, em média, R$ 3,5 mil. Ela faz uma tomografia mais detalhista, que permite a detecção de mínimas lesões tumorais ou novos focos da doença. O médico Marcus Grigolon, especialista em medicina nuclear da Clínica Villas Boas, explica que essa Tomografia por Emissão de Pósitrons capta toda a atividade metabólica das células humanas. Para isso, injeta-se no paciente glicose com um material radioativo. Como o açúcar é combustível para o funcionamento das células e as lesões tumorais têm atividade muit o acelerada, elas consomem o material injetado. “Assim, a máquina reproduz com nitidez nos locais de maior concentração de atividade. É onde está o tumor. Com isso, tivemos um ganho de cerca de 30% para visualizar melhor o tumor.” Essa tecnologia também se apropria de recursos da tomografia computadorizada, que, por sua vez, usa os de raios X e tecnologia de computador para produzir imagens diagnósticas detalhadas, que determinam a localização e a forma das lesões num determinado órgão.
    < br>No microscópio
    “Sabemos que há vários tipos de câncer, mesmo que sejam localizados no mesmo órgão. Temos os exames que permitem diferenciar qual grupo molecular o paciente faz parte e, assim, podemos ministrar medicamentos específicos para esses subgrupos”, avisa o médico Carlo Gil Ferreira, do Inca. O papel da biologia molecular é descobrir como interromper o crescimento das células doentes. “Para isso, o patologista precisa saber de onde a célula surgiu, se o câncer é primário ou veio de outro tecido, sua velocidade de crescimento e agressividade”, diz o médico patologista Florêncio Figueiredo. Nessa tarefa, o especialista conta com um exame disponível há apenas 20 anos: a imuno-histoquímica. Com um pequeno material de biópsia do tecido doente, o médico analisa em microscópio quais as características moleculares da doença. Assim, é possível identificar quais tipos de moléculas influem nessa divisão celular, de qual órgão se originou, se é uma célula de glândula, tecido de r evestimento. “Tudo isso tornará o tratamento mais específico e com mais efeitos”, garante Florêncio.

    2. Cirurgias

    Biópsias
    Há duas, três décadas, era preciso submeter o paciente a uma cirurgia para saber a extensão do tumor. Hoje, as biópsias se tornaram menos invasivas e sem dor. O médico usa apenas uma fina agulha, recolhe o material e o paciente vai embora.

    Retirada da lesão
    Se a retirada da lesão é inevitável e o estado de saúde do paciente permite, as té cnicas cirúrgicas também evoluíram. Elas mutilam menos e deixam menos sequelas. “Até a década de 1980, mesmo que o tumor de mama fosse pequeno, você retirava quase toda a mama, os músculos da região, linfonódulos auxiliares. Agora fazemos a cirurgia sempre pensando em preservar o membro”, afirma Ademar Lopes, oncologista do hospital AC Camargo.

    Reconstrução imediata da mama
    O medo de ver sua imagem mutilada afeta muitas pacientes com câncer de mama. Hoje, as cirurgias de retirada d a mama quase sempre são feitas com as plásticas reconstrutoras, e a paciente nem se vê sem uma parte do corpo. Entre as novidades, o cirurgião plástico Múcio Porto, de Brasília, é pioneiro em trazer para o Brasil a técnica desenvolvida pelo americano Roger Khouri. “A técnica consiste na combinação de conhecida técnica de sucção e injeções de gordura do próprio paciente. Depois de expandir a mama pela pressão, injeta-se a gordura para preencher os espaços vazios sob a pele, substituindo até o us o da prótese.”

    Médicos robôs
    Outra opção são as cirurgias videolaparoscópicas, minimamente invasivas. Pequenos tubos são introduzidos no corpo do paciente. Entre as vantagens, estão o menor tempo de internação, menos analgésicos no pós-operatório e incisões menores. A cirurgia robótica, na qual os médicos operam por meio de controles, trouxe mais precisão às intervenções, além de evitar os tremores naturais das mãos. Os cabos permitem ainda chegar a locais inviáveis na cirurgia abe rta.

    3. Medicamentos

    Terapia-alvo
    Os medicamentos agem preferencialmente nas células tumorais, preservando as saudáveis e evitando os efeitos colaterais que impediam o tratamento, interrompiam as sessões de químio e até matavam, como explica a radioterapeuta Dóris Daher. São duas classes de medicamentos disponíveis no Brasil que se encaixam nesse tipo de terapia, classificada como terapia alvo: 1) os inibidores de tirosinoquinase impedem o crescimento de vasos sanguíneos que alimentam o tumor e atacam as células tumorais, evitando a multiplicação. Indicados no tratamento do câncer renal, de mama, gastrointestinal, além de ser estudado para pâncreas e pulmão. 2) anticorpo monoclonal: são moléculas que identificam e se ligam às suas proteínas-alvo. Assim, permitem alterar a ação delas, que conduzem o crescimento descontrolado e a sobrevivência das células cancerosas.

    Quimioterapia
    As drogas são injetadas ou tomadas como comprimidos. Ela não especifi ca quais células deverá combater, comprometendo inclusive as normais. Precisa ser bem administrada para que prejuízos e desconfortos sejam menores que os benefícios.

    Radioterapia
    Uma equipe de físicos e médicos conta com a inteligência de softwares para definir onde e qual quantidade de radiação será emitida no tumor. Com novas máquinas de radioterapia, como o acelerador linear, é possível reconstruir o corpo do paciente de forma tridimensional, saber a localização do tumor e como ele será atacado pela radiação. Também se vê com precisão os órgãos a serem preservados. Esse planejamento do tratamento pode levar até cinco dias e envolve os conhecimentos de ciência da computação, matemática, física e medicina. “No exame bidimensional você não tinha a localização perfeita da lesão e, para preservar tecidos e órgãos próximos, a emissão de radiação era limitada. Hoje, as doses podem ser maiores e mais certeiras”, garante a médica radioterapeuta Dóris Daher, do Instituto de Ra dioterapia, do Complexo do Centro de Excelência Anchieta, em Taguatinga, um dos dois hospitais particulares do DF a contar com a máquina, que também está disponível no Centro de Alta Complexidade em Oncologia do Hospital Universitário (Cacon- UnB). Os pacientes serão encaminhados pelo Hospital de Base para fazer o tratamento. Até o fim do mês, serão atendidos diariamente 18 pacientes. A partir de março, 40, e, em abril, 50. O tratamento ocorre entre cinco e seis semanas e cada sessão dura 20 mi nutos. “Temos ainda a máquina de braqueterapia, indicada para câncer de cólo de útero, endométrio. Um material radioativo do tamanho de um grão de arroz entra em contato com o tumor, com a ajuda de um software, que redesenha onde o catéter deve ser posicionado em um espaço tridimensional”, diz o físico Samuel Avelino, coordenador da Radiologia do Cacon do HUB.