Ministério da Saúde muda programa nacional
de imunização e coloca nova faixa etária — entre 30 e 39 anos — no cronograma de
quem receberá as doses entre março e maio. Temporão alega que queda no preço de
compra ajudou
Renata Mariz
Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
Felipe Xavier lamenta que o pai, de 57 anos, não
poderá tomar a dose: “Ficaríamos mais seguros se todo mundo pudesse
receber”
Uma queda de pelo menos 35% no valor da dose levou o Ministério da
Saúde a ampliar a faixa da população que receberá a vacina contra o vírus A
(H1N1) no Brasil. Além de profissionais da saúde, indígenas, gestantes, crianças
de seis meses a dois anos, jovens de 20 a 29 anos e pessoas com doenças
crônicas, adultos de 30 a 39 anos serão imunizados contra a gripe suína.
Especialistas avaliam a ampliação de forma positiva, destacando, porém, que o
ideal seria imunizar 100% d os brasileiros. O ministro da Saúde, José Gomes
Temporão, apontou que a disponibilidade do medicamento, hoje encalhado em muitos
países da Europa, tornou possível a inclusão de mais pessoas no plano de
vacinação, negando que o país tenha tentado receber o produto gratuitamente.
“Não teria sentido pedir doação, nós compramos a vacina porque sobrou
mais vacina. Lembro que a primeira compra foi feita em novembro do ano passado,
era uma outra realidade. E agora, no mercado internacional, houve
disponibilidade a mais, e isso permitiu que nós incorporássemos essa nova faixa
de 30 a 39 anos”, afirmou o ministro. Com a mudança, serão necessárias mais 30
milhões de doses do medicamento, totalizando 113 milhões. A compra será
realizada com o aporte de R$ 300 milhões, previstos para serem liberados por
medida provisória. O preço da dose nas compras anteriores girou entre R$ 11,64 e
R$ 13,33, agora foi negociado por R$ 7,65. As vacinas adicionais virão de um
laboratório francês, que as repassará ao Instituto Butantan, onde elas serão
envasados.
Máscara
Para o presidente da Sociedade Brasiliense
de Infectologia do Distrito Federal, Julival Ribeiro, quanto maior a cobertura,
melhor. “Já que não terá para todo mundo, que vacinem o quanto puderem”, afirma.
O especialista n ão tem dúvidas quanto à importância da imunização, mesmo com os
riscos inerentes a uma vacinação em massa. “Ninguém sabe se esse vírus pode
mutar, ou seja, se pode se tornar mais agressivo. Entendemos os temores que
podem haver em países que já passaram pela vacinação. Porém, essa é o único meio
de nos proteger desse vírus”, afirma. Temporão rechaçou qualquer dúvida sobre a
eficiência do medicamento. “Não tivemos nenhum relato de efeitos colaterais nos
países que já fizeram as campanhas, é uma vacina segura e eficaz”, afirmou.
O analista de sistemas Felipe Bruno Xavier não tem dúvidas. Depois de
conviver com o pai adoentado, que contraiu a gripe suína no ano passado e se
curou depois de fazer o tratamento, o rapaz, de 25 anos, vai se vacinar assim
que puder. “Ele ficou sem voz, bem ruim mesmo. Parecia uma gripe forte, só que
pior. Lá em casa, ficamos todos de máscara, ele teve de permanecer isolado até
ficar bom”, conta Felipe. Sem querer passar pelo mesmo problema de novo, ele
ressente-se de o pai, que tem 57 anos, não poder tomar a vacina. “Não dá para
dizer que é errado, deve haver algum sentido nesse critério dos grupos
prioritários. Mas ficaríamos mais seguros se todo mundo pudesse receber”, afirma
Felipe.
Epidemiologista e professor da Universidade de Brasília (UnB),
Pedro Tauil aponta como acertada a decisão do Ministério da Saúde de vacinar
pessoas de 30 a 39 anos. E não vê motivo para os grupos não contemplados terem
medo. “Vacinando uma grande p arte da população você cria uma barreira
imunológica forte, chamada de imunidade de rebanho”, destaca. Temporão
classificou como desnecessária uma eventual corrida de pessoas a clínicas
particulares que passem a comercializar a vacina. “Quando crio um grupo grande
vacinado, faz com que a totalidade se proteja”, diz. Sobre a população que não
terá direito a vacina, o ministro voltou a dizer que a definição do público
segue parâmetros decididos “por renomados especialistas”, baseados em diretrize
s da Organização Mundial de Saúde (OMS). A nova gripe matou 1.705 pessoas no
Brasil. Mais de 20 mil casos foram registrados.
Dengue
Temporão afirmou que o Ministério da Saúde tem auxiliado os estados do
Acre, Goiás, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul no combate à dengue, mas
pediu que a população também faça sua parte, ao lembrar que o clima atual
contribui para uma proliferação do Aedes aegypti. “Este ano fez muito calor, o
que encurta pela metade o período de evolução de larva para mosquito. Por isso,
pedimos a todo mundo que tome as providências necessárias, não fiquem só
esperando que outras pessoas façam alguma coisa”, afirmou o ministro. Hoje, a
pasta divulgará o número de casos de dengue no país em 2010.
Ninguém sabe se esse vírus pode mutar, ou seja,
se pode se tornar mais agressivo. Entendemos os temores que podem haver em
países que já passaram pela vacinação”
Julival Ribeiro, presidente da Sociedade
Brasiliense de Infectologia do Distrito Federal
Vacinando uma grande parte da população você
cria uma barreira imunológica forte”