
Nunca se falou tanto de
sexo. Jamais ele foi considerado tão importante. O dinheiro que se gasta com
isso não para de crescer. E nunca se faz tanto sexo como agora. Boa parte das
mulheres, porém, parece não aproveitar a festa como poderia. Dados da mais ampla
pe squisa feita sobre sexo já realizada no país — o estudo Mosaico Brasil —, em
2008, mostram que 35% das mulheres adultas sofrem de algum tipo de disfunção
sexual. Os estudiosos no assunto revelam que, a cada 100 mulheres, 35 nunca
atingiram o orgasmo e uma em 10 tem problemas de desejo sexual. Na vida de cada
uma, isso torna-se um problema que atrapalha não só a relação conjugal, mas
também a saúde mental e física.
Segundo especialistas, as causas das
disfunções sexuais femininas podem ser tanto orgânicas — como doenças e uso de
drogas — quanto psicológicas. É consenso nos consultórios, contudo, que grande
parte dos problemas sexuais são provocados justamente por razões emocionais.
“Isso envolve as várias nuances do relacionamento a dois e a construção da
sexualidade individual”, diz o psicólogo e sexólogo Paulo Bonança. São traumas,
culpas e até desentendimentos com o parceiro que acabam agravando o quadro de
disfunção sexual.
Entre os fatores orgânicos, há elemento s como a
fisiologia da mulher — má formação congênita, questões hormonais e até doenças
como o diabetes, a hipertensão e a depressão — e o uso de remédios. Já os
fatores emocionais passam pelo âmbito cultural, influenciado pela sociedade —
com seus valores e preconceitos —, pela herança herdada dos pais e até mesmo
pela religião.
Gérson Lopes, ginecologista e presidente da Comissão de
Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia
(Febrasgo), destaca qu e, primeiro, é necessário a mulher conhecer e entender o
seu corpo e, principalmente, não ignorar os problemas que surgem. Ou seja, a
mulher deve procurar um médico quando aparecer qualquer tipo de problema que a
incomode em relação ao sexo. “Esses problemas são muito mais comuns do que se
imagina. O melhor de tudo é que eles têm tratamento. Se forem orgânicos e
fisiológicos, o ginecologista resolve. Se for na esfera emocional, o sexólogo
trata rápido, dependendo dos fatores causadores. Se não for tratado, a mulher
pode entrar em depressão”, esclarece Lopes.
Libido
As duas
maiores queixas que o ginecologista recebe em seu consultório são a falta de
desejo sexual e a falta de excitação, ou ausência de prazer. “Isso afeta,
principalmente, mulheres a partir dos 40 anos, que começam a ter a libido
reduzida(1) por conta do início do climatério”, esclarece. O
médico explica que essa ausência se dá de duas formas: quando a mulher tem
desejo, mas não se nte prazer, o que, possivelmente, está associado a fatores
emocionais; e quando ela consegue ter prazer, mas não há lubrificação vaginal
adequada, o que faz com que a relação sexual se torne dolorida. Essa segunda
situação, de acordo com Lopes, na maioria da vezes, está relacionada à
deficiência na produção do hormônio estrogênio.
Mesmo sabendo das
consequências decorrentes da menopausa, a comerciante Maria*, 50 anos, se
assustou quando começou a sentir dor no ato sexual. “Ficava me p erguntando o
que havia de errado, pois eu sentia desejo, mas o sexo me machucava. Procurei o
médico e ele me disse que minha lubrificação vaginal havia diminuído e que iria
diminuir mais com a idade — na época, tinha 42 anos. Ele me passou alguns
remédios, para acertar meus hormônios, e me receitou lubrificantes. A partir
daí, retomei minha vida sexual e não tive mais dores”, relata a comerciante.
Contudo, uma disfunção chama a atenção dos especialistas: a falta de
orgasmo. Esse proble ma, segundo Lopes, atinge mulheres jovens de 20 anos a 30
anos e, possivelmente, é causado pela “ditadura” do orgasmo e pela ansiedade do
desempenho sexual. Paulo Bonança acrescenta que a pressão sobre a mulher para
que ela se enquadre nos padrões de beleza e para que ela corresponda à imagem da
“mulher dos sonhos” — a mais bonita, a melhor de cama, a que está sempre com
vontade e tem prazer o tempo todo. “Se espera que as pessoas sigam os padrões de
comportamento. Isso é negar o que ela sente de verdade. Esses aspectos são
externos e não representam o que a pessoa sente e quer”, diz o sexólogo.
Longe das nuvens
A publicitária Mônica*, 36 anos, afirma
nunca ter tido um orgasmo. “Adoro sexo, sinto prazer, mas nunca fui até ‘as
nuvens’, como minhas amigas dizem sentir-se quando têm orgasmo”, brinca. A
publicitária alega que o fato de ter sido gorda na adolescência reflete-se hoje.
“Sempre acho que o meu parceiro não vai me achar gostosa e isso me atrapalha,
porque f ico prestando atenção se ele está observando alguma coisa no meu
corpo”, conta. Mônica revela que a obrigação que ela sente de estar sempre
bonita para o prazer do outro a incomoda. “Não é todo dia que estamos bem, mas
me sinto na obrigação de estar.”
O que a publicitária vive é a realidade
de muitas mulheres. Bonança ressalta, porém, que o sexo não é algo pensado, mas
sim sentido. Segundo ele, quando uma pessoa faz sexo se observando, ela está
fora do ato, não está em contato com o pr azer. Por outro lado, fingir que não
está acontecendo nada e não conversar sobre o problema só agrava o quadro. “É a
fantasia de que, se não se tocar no assunto, não se vai passar pela angústia e
ansiedade. Essa própria disfunção é um sintoma de que a pessoa encobre algo”,
analisa o sexólogo. “O ideal é que a pessoa busque ajuda. Uma terapia específica
com sessões no consultório e com possíveis tarefas de casa — atividades de
autoconhecimento.” Bonança insiste, contudo, que a mulher deve conver sar com o
parceiro. “O companheiro pode até pensar que não há nenhum problema, mas sente
que algo está errado. O corpo fala.”
Nomes fictícios a pedido das
entrevistadas
1 - Estrogênio em queda
A menopausa é um dos
fatores que podem desencadear uma redução da libido. Quando começa, na
meia-idade, o corpo diminui a produção do estrogênio — que inicia na
adolescência, quando é responsável pelo aparecimento dos sinais sexuais
secundários na mulher. A diminuição desse h ormônio é a causa da falta de
lubrificação vaginal, que acaba por afetar as relações sexuais, ao tranformá-las
em algo desagradável e doloroso. O tratamento é feito com a reposição hormonal
indicada por um ginecologista.