Medo em duas frentes

Tremor de 5,7 graus abala a Cidade do México, enquanto metrópole luta para conter a doença

Viviane Vaz

No momento em que o ministro da Saúde do México, José Ángel Córdova, explicava aos jornalistas sobre a situação da gripe suína no país, um terremoto de 5,7 graus na escala Richter sacudiu a cidade. Nas ruas do centro, moradores com o semblante assustado, parcialmente oculto por máscaras, busc avam proteção. O terremoto não deixou feridos nem causou danos, mas o mesmo não se pode dizer da doença. O governo mexicano confirmou a morte de 149 pessoas e anunciou que mais de 1.600 pessoas foram atingidas pela enfermidade.

“A situação é grave, mas esperamos que melhore logo”, disse um alto funcionário do Ministério de Relações Exteriores mexicano ao Correio, por e-mail. O presidente Felipe Calderón garantiu que a doença é “séria, mas curável” se tratada a tempo e que o México con ta com medicamentos “suficientes para atender os casos que ocorrerem”.

O vírus da gripe suína afetou 40 pessoas nos Estados Unidos, mas o presidente Barack Obama pediu calma aos americanos e por enquanto não fechará a fronteira com o México. “É obviamente um motivo para preocupação que requer um elevado estado de alerta. Mas não é razão para alarme”, disse em um discurso na Academia Nacional de Ciências. Obama justificou a decisão do governo em declarar estado de “emergência em saúde pública” à necessidade de dispor dos recursos necessários para enfrentar o caso de maneira “rápida e efetiva”.

Mas outros países tomaram medidas preventivas que podem isolar o México. Na chegada ao Chile, os jogadores do time de futebol Chivas de Guadalajara passaram por um rigoroso controle sanitário para entrar no país, que sedia uma partida pela Copa Libertadores da América. Cuba limitou os voos ao México e a Comissão Europeia desaconselhou viagens para as áreas atingidas pela doenç a. China, Tailândia, Indonésia e Rússia proibiram a importação de produtos suínos do México e dos Estados Unidos — apesar de o vírus se propagar apenas pelas vias respiratórias. Por outro lado, o governador Fidel Herrera, da região montanhosa de Perote, negou que a doença tenha começado na sua localidade. “(A gripe suína) se localiza na Ásia, na China, daí chegaram os passageiros para a América do Norte e certamente ao Distrito Federal e ao estado do México”, defendeu Herrera.

Seman a crítica
Na capital, o governo tenta manter a população em suas casas para evitar que a contaminação se espalhe. O prefeito da Cidade do México, Marcelo Ebrard, explicou que esta semana é crítica para frear a propagação do vírus, porque são necessários 10 dias para quebrar a cadeia de transmissão. As aulas foram suspensas e o governo convenceu os empresários a paralisarem as atividades comerciais na capital. O Conselho Coordenador Empresarial (CCE) afirmou que ajustará as jornadas de t rabalho em escalas definidas pela Secretaria do Trabalho.

A Associação de Bancos do México (ABM) decidiu ampliar o horário de atendimento para até as 18h de 6 de maio, com o objetivo de facilitar o acesso dos clientes. Algumas agências tentaram barrar clientes usando máscaras para evitar aumento no número de assaltos, mas a medida foi proibida.


Mexicanos relatam drama
Fotos: Arquivo Pessoal
 

“Há um ambiente de incerteza por parte da população aqui na Cidade do México. Muitas pessoas não saem muito, obedecendo os pedidos do governo para permanecerem em casa. Como medidas preventivas, as autoridades pediram que cinemas, igrejas, museus e estádios de futebol deixem de funcionar. As escolas estão suspensas até 7 de maio para proteger as crianças e evitar o contágio. A população tem se comportado de modo muito responsável, não há medo generalizado, mas uma incer teza sobre o que pode ocorrer. As pessoas comentam que até o momento o surto parece controlado. Em meu trabalho, todos os empregados receberam máscaras. As pessoas que apresentam qualquer sintoma de gripe são levadas à revisão médica. As reuniões foram suspensas e optou-se por fazê-las pelo telefone. Já é muito difícil adquirir máscaras na cidade. No fim de semana, poucas pessoas saíram de casa. Eu dei uma volta e a capital estava deserta. Tenho confiança de que a epidemia será contida, mas cre io que o número de mortos dobrará”

Ernesto Alonso Contrera Dominguez, 36 anos, engenheiro de sistemas


 

“As pessoas estão assustadas. As aulas, desde o jardim da infância até a universidade, ficarão suspensas até 6 de maio. Três em cada 10 moradores de minha cidade estão usando máscaras. Bares e restaurantes foram fechados, as autoridades cancelaram as partidas de futebol e a cidade ficou vazia no fim de semana. Poucos saíram de suas casas. Não tenho tomado nenhum tipo de precaução, pois trabalho em um ambiente controlado. Na realidade, essa epidemia não é tão grave como parece. Não se trata de um vírus letal. É uma mutação, um vírus novo. Mas não é algo que te mata em oito horas. O governo realizou uma operação nacional para evitar uma pandemia. Mas continuo correndo ao redor do lago pela manhã, venho trabalhar e dirijo meu carro com normalidade”

Julio Cesar Campos Quezada, 34 anos, consultor de energia


 

“Creio que ainda que se tenha feito um bom esforço por parte das autoridades, ainda há muita gente que não leva a situação com seriedade. Infelizmente, isso pode continuar espalhando o vírus. Só espero que o governo tenha os medicamentos suficientes para fazer frente a esse problema e que isso acabe logo. As farmácias têm aumentado muito os preços das máscaras e há gente que se aproveita da situação, comercializando vacinas que não servem contra o vírus ou medicamentos enriquecidos com vitamina C, como se isso fosse a cura. As pessoas ficam um tanto paranoicas. Tive de mudar minha rotina. Não posso assistir a meus cursos e optei por trabalhar em casa”

Liliana Maqueda, 35 anos, engenheira de sistemas


 

“Na empresa em que trabalho fizemos um site sobre a possível pandemia de gripe aviária. As pessoas por aqui estão falando todo tipo de loucuras. Tenho medo de ir a reuniões e
evito usar o transporte público. Não pego mais metrô ou ônibus. Também evito apertos de mãos. Acabo de ter uma reunião de trabalho e três de cinco pessoas que usavam máscaras me cumprimentaram com um aperto de mão. Estamos com medo e muitos de meus colegas não querem trabalhar. Outras empresas preferem não ter funcionários andando de metrô, mas nem todos usamos internet para trabalhar. Todos sentimos que estamos com gripe”

Marcos Barraza Gómez, 35 anos, empresário e webdesigner