
O veneno da jararaca, serpente
responsável por entre 70% e 90% dos acidentes que envolvem cobras venenosas no
Brasil, não é temido somente pelo efeito imediato altamente tóxico provocado ao
organismo, dano neutralizado pelo soro antiofídico. A secreção venenosa da
Bothrops jararaca ou das variações desse gênero tem ação específica no local da
picada, podendo causar uma série de complicações. Pelo menos 10% dos casos
evoluem para hemorragia, necrose ou até amputação de membros. A responsável por
essas mazelas é a jararagina, toxina isolada em 1992 e estudada desde então por
cientistas do Brasil e do mundo. Foi no Laboratório de Imunopatologia do
Instituto Butantan, porém, que o mecanismo de ação dessa proteína foi
desvendado. A pesquisa de quatro anos realizada como tese de doutorado da
bióloga Cristiani Baldo trouxe perspectivas animadoras para o desenvolvimento de
medicamentos que atuarão na soroterapia.
O estudo de Cristiani provou
que a jararagina é uma das principais responsáveis pelas manifestações locais
decorrentes da picada. Hemorragia, edema, inflamação e a possível perda de
função do membro são algumas. Segundo a pesquisadora, o soro antibotrópico
consegue neutralizar bem os efeitos sistêmicos do veneno — aqueles que causam
alterações cardiovascula res, renais e na coagulação sanguínea —, mas não rebate
as complicações locais, que se estabelecem rapidamente. “O veneno da jararaca é
composto por uma grande variedade de substâncias tóxicas que agem na pele,
principalmente as metaloproteinases, grupo que inclui a jararagina. Já sabíamos
que tal proteína era hemorrágica, o que desvendamos foi a maneira como ela age
nos vasos e induz a hemorragia”, explica.
O trabalho da bióloga,
publicado na revista PLoS Neglected Tropical Disease, d escreve que a substância
tóxica procura os vasos capilares. Ao se concentrar neles, provoca rupturas e
induz o sangramento local. Nos experimentos, a toxina recebeu um marcador
fluorescente e foi injetada na pele de camundongos. “Com um microscópio
confocal, acompanhamos o caminho que ela percorreu até causar o estrago no
tecido. A jararagina destrói os vasos. O oxigênio e os nutrientes carregados
pelo sangue não chegam mais à região atingida pela picada”, pontua a cientista.
A degradação impulsiona a inflamação, a necrose e todas as complicações que
podem culminar com a amputação. “Trabalho com pesquisa básica, campo que abre
portas para futuros estudos. Outros cientistas investigarão os inibidores de
jararagina mais adequados para serem ministrados com o soro”, acrescenta.
Negligência
A Organização Mundial da Saúde (OMS) enquadrou o
acidente com serpente na lista de doenças tropicais negligenciadas. A própria
OMS estima que 5 milhões de pessoas sejam picadas po r cobras todos os anos. A
metade resulta em envenenamento, o que gera um saldo de 120 mil mortes e 250 mil
pessoas com sequelas. No Brasil, dados preliminares referentes a 2009 revelam
que foram notificados 22.763 mil acidentes — pelo menos 16 mil, com jararacas.
Oficialmente, 106 pessoas morreram. Especialistas garantem, no entanto, que o
número pode ser muito maior, pois nem todas as vítimas são socorridas em
hospitais e muitos casos nem chegam ao conhecimento do Ministério da Saúde.
O gênero Bothrops compreende cerca de 19 espécies, distribuídas por
todo o território nacional. A Bothrops jararaca é encontrada no sul da Bahia, no
Espírito Santo, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, em São Paulo, no Paraná, em
Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. As outras jararacas, cujo veneno tem
praticamente as mesmas toxinas, são encontradas em todo o país. Logo após a
picada, geralmente ocorre um pequeno sangramento no local. O inchaço, a
vermelhidão, a dor, a dificuldade de coagula ção do sangue e a hemorragia
dependem de alguns fatores. Socorristas alertam que a idade da serpente, a
quantidade de veneno injetado e o período de tempo transcorrido entre o acidente
e o atendimento são muito relevantes na questão dos efeitos provocados pela
jararagina, assim como o peso do paciente e a região anatômica atingida.
O agricultor Altenir Schreider, 47 anos, se considera um homem de sorte.
Em uma noite em que saiu para caçar com amigos no interior do Maranhão, ele
acabou sendo vítima de uma jararaca-rabo-de-osso (Brothops neuwiedi). “Não pisei
na serpente, mas passei muito perto e ela não hesitou em atacar. Chovia muito,
não havia hospitais na região e eu não consegui atendimento médico. Sobrevivi
porque, pelo tamanho da cobra, ela era, provavelmente, um filhote”, revela.
O funcionário público Deusino Ferreira Lima, 51 anos, também foi picado
na perna quando morava no interior de Tocantins, no fim da década de 1980.
“Estava sozinho, voltando da lida na roça. A picada foi tão forte que tive a
sensação de ser suspenso do chão. Ainda andei por 15 minutos até chegar em casa
e ser levado ao hospital, onde já cheguei carregado. Tomei o soro, mas fiquei
internado por 30 dias. Perdi parte da mobilidade da perna e nunca mais consegui
recuperá-la”, lamenta
Menos mortes
No Hospital Vital Brasil,
unidade médica do Instituto Butantan, o índice de infecção em vítimas socorridas
com o soro antiveneno é de 14%. “Felizmente, atendemos pacientes precoces, cujo
acidente ocorreu a, no máximo, três horas. Cerca de 6% dos casos evoluem para a
necrose e apenas 1% dos atendidos precisam se submeter à amputação. As vítimas
picadas em localidades extremas do Brasil, que não contam com atendimento médico
— e isso é uma realidade em nosso país —, sofrem muito mais com essas sequelas”,
explica a médica Ceila Malaque.
O ataque de serpentes adultas realmente
costuma ser mais danoso. Nas regiões com estações definidas, os acidente s são
menos comuns no inverno. Trabalhadores rurais e moradores de áreas próximas a
matas são os mais expostos. “O soro preserva a vida do paciente. Hoje, apenas
0,4% dos envenenados por jararaca morrem. A letalidade diminuiu, e isso é um
grande avanço. Agora, os medicamentos que possam surgir a partir do
desvendamento de ação da jararagina serão bem vindos e poderão complementar a
soroterapia. Teremos alguns anos de estudo pela frente, mas chegaremos a eles”,
arrisca a médica.