Liberdade visual

Cirurgias refrativas, hoje feitas a laser, ajudam as pessoas com miopia, astigmatismo e hipermetropia a se livrarem dos óculos e das lentes de contato. Riscos, porém, devem ser bem ponderados

  • Márcia Neri

    Adauto Cruz/CB/D.A Press
    Adeus aos óculos: com a cirurgia, Monalisa zerou a miopia nos dois olhos
     

    Até meados do século passado, tanto os míopes quanto as vítimas do astigmatismo e da hipermetropia dependiam exclusivamente dos óculos para enxergar bem. Avanços da medicina e da tecnologia trouxeram opções que mudaram essa realidade. Hoje, a cirurgia refrativa corrige esses problemas e traz liberdade àqueles que se viam presos a um par de lentes, com ou sem armação. Mas até que ponto o procedimento, atualmente feito a laser, é realmente seguro?

    Embora seja uma das intervenções mais realizadas por oftalmologistas, a técnica ainda tem restrições e nem todos podem se beneficiar dela. O oftalmologista Edney Resende Moura, da Clínica Pacini, explica que o objetivo da cirurgia refrativa é zerar o grau de miopia, de hipermetropia e de astigmatismo. Mas especialistas também lançam mão do método para amenizar a presbiopia, chamada popularmente de vista cansada. Nesse caso, o paciente tem dificuldade de enxergar de perto. “A cirurgia refrativa não consegue so lucionar perfeitamente a presbiopia. Então, fazemos uma adaptação. Deixamos um olho um pouco mais míope, favorecendo a visão de perto, e o outro zerado para longe”, explica.

    As duas técnicas mais utilizadas em cirurgias refrativas no Brasil são o Lasik e o PRK — ambas usam o laser. O dispositivo atua na primeira lente do olho, que é a córnea. Na verdade, ele a remodela para que a imagem chegue focada na retina. Nos míopes, o feixe de luz é aplicado para achatar a córnea. Em quem tem hipermetropia, ele tem a função de curvá-la. “A curva vertical da córnea é diferente da curva horizontal nos pacientes com astigmatismo, por isso a imagem fica borrada, desfocada. Nosso objetivo, nesse caso, é fazer com que a curva se iguale, corrigindo o vício refracional para promover a acuidade visual”, esclarec e Edney.

    A indicação cirúrgica depende de uma série de fatores e o candidato ao procedimento passa por um pré-operatório detalhado, com mapeamento de retina e topografia da córnea. O grau deve estar estabilizado há pelo menos um ano e o paciente não pode ter outras doenças oftalmológicas ou processos degenerativos, como ceratocone ou glaucoma. “A córnea tem que estar sadia. Sua quantidade de células e a espessura são avaliadas com cuidado nos exames. Se a estrutura for muito fina, a co rreção a laser é contraindicada”, lembra o médico. O oftalmologista Henrique Magalhães, chefe do departamento de cirurgia refrativa do Instituto de Olhos e Microcirurgia de Brasília, observa que a estabilização do grau geralmente ocorre entre os 18 e 21 anos. “Na miopia e no astigmatismo, qualquer grau acima de um já incomoda bastante e tem indicação. Para a hipermetropia, vale a pena operar de três graus para cima”, afirma.

    Opções

    Pelo Lasik, é retirada uma “capinha” d a córnea para a aplicação do feixe de luz. No fim do procedimento, a porção removida é reposicionada e funciona como um curativo que facilita a recuperação. Pelo o PRK, o epitélio, que é a camada mais superficial da córnea, é extraído para se aplicar o laser. Uma lente de contato é colocada para proteger o olho até que o epitélio se regenere. “A técnica mais adequada depende da anatomia de cada paciente. Se ele tem a córnea mais fina, geralmente o especialista opta pelo PRK. Se a córnea é mais espessa, o Lasik é mais indicado, porque o pós-operatório é mais rápido”, explica Henrique. Os oftalmologistas, em geral, preferem operar um olho de cada vez. Os procedimentos são feitos com o auxílio de um colírio anestésico.

    O objetivo — e o grande benefício — da cirurgia refrativa é livrar o paciente da dependência dos óculos ou das lentes de contato. Os oftalmologistas ponderam, no entanto, que a medicina não é uma ciência matemática. “Cada paciente reage de uma forma. Às vezes, fi ca um grau residual, fato que não impede uma nova cirurgia ou o uso de lentes de contato. Mas, para aqueles que estavam com a visão muito comprometida, ficar com um pequeno resíduo ainda é vantagem”, considera Edney.

    A sargento do Exército Monalisa dos Santos Bicalho, 29 anos, usava óculos há mais de uma década. Segundo ela, o acessório sempre incomodou. Para a moça, as lentes de contato aliviam o desconforto estético, mas ressecam os olhos e demandam tempo e cuidados extras de higieni zação. A cirurgia foi realizada há um mês e a miopia de Monalisa — 2,5 graus no olho esquerdo e 1,5 no direito — foi zerada. “Realizei um sonho. Enxergar perfeitamente, sem usar óculos ou lente de contato, foi uma emoção. A minha recuperação foi ótima. No mesmo dia, já estava enxergando muito bem. A autoestima melhorou muito. Os óculos ficaram no passado”, garante ela.

    Resíduos

    Para o engenheiro Alexandre Lobo, 38 anos, a cirurgia não zerou os 5,25 graus de miopia que o deixavam totalmente dependente das lentes de contato. Resíduos de um grau no olho esquerdo e de 0,75 no direito o deixaram decepcionado nos primeiros dias após a operação. “Tinha uma enorme expectativa de zerar meu grau. Meus amigos que haviam feito conseguiram e eu não esperava que seria diferente comigo. Pratico atividades ao ar livre, exploro cavernas, ando de bicicleta. Tanto os óculos quanto as lentes atrapalham”, considera.

    Apesar de admitir a frustração, Alexandre diz que hoje , mesmo sabendo da possibilidade do resíduo, faria a cirurgia novamente. “Fiquei chateado no início. De qualquer forma, enxergo muito melhor hoje e isso já me deixa feliz”, acrescenta.

    Embora considerada a cada dia mais segura, os riscos da cirurgia refrativa devem sempre ser ponderados. Não é comum, mas podem ocorrer problemas que venham a comprometer seriamente a visão do paciente, como infecções, descolamento da retina e descompensação da córnea, incidentes nem sempre reversíveis. E m casos raros, o paciente pode até perder a visão. O pré-operatório é um instrumento importante para reduzir os riscos. “É importante saber indicar, contraindicar e estar preparado para eventuais complicações”, reforça o oftalmologista Edney.