
O
nome da doença vem do teatro japonês e refere-se à aparência das crianças que
nascem com um mal raro, com incidência estimada de um em cada 32 mil
nascimentos. O pouco conhecimento sobre a síndrome de Kabuki, descoberta apenas
em 1981, é uma preocupação a mais para os pais, que costumam peregrinar por
consultórios médicos até conseguirem saber por que seus filhos são tão
diferentes dos outros (veja infografia). Uma descoberta publicada na edição
on-line da revista especializada Nature Genetics pode, porém, revolucionar o
diagnóstico e o tratamento da síndrome, que, no Brasil, tem pelo menos 18 casos
relatados.
Um grupo de cientistas da Universidade de Washington usou um
novo, rápido e mais barato método de sequenciamento de DNA e descobriu
alterações genéticas que es tão presentes na maioria dos casos da síndrome de
Kabuki. Em vez de mapear todo o genoma humano, a nova abordagem investigou
apenas o exoma, uma pequena parte do genoma (entre 1% e 2%) que contém os
códigos genéticos proteicos. Dessa maneira, eles conseguiram encontrar o gene
que causa a síndrome, chamado MLL2.
Segundo os cientistas, o método pode
ser considerado uma segunda geração de tecnologia para identificar genes de
doenças raras. “O potencial de identificar rapidamente as mutações que causam
mais de 6 mil doenças raras é um passo importante para pesquisadores que tentam
entender a biologia dessas condições e, assim, melhorar as estratégias para o
tratamento dos pacientes”, comemorou, em um comunicado divulgado à imprensa,
Eric D. Green, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas do Genoma (NHGRI,
sigla em inglês), instituição norte-americana que financiou o estudo.
Os
pesquisadores da Universidade de Washington sequenciaram os exomas de 10
indivíduos sem parentesco entre eles que nasceram com a síndrome de Kabuki.
Partindo do princípio de que a síndrome é causada por alterações em apenas um
gene, eles compararam os exomas dos pacientes com os de pessoas saudáveis, em
busca de diferenças. Inicialmente, nenhuma foi identificada.
A partir
daí, os cientistas levantaram a hipótese de que a síndrome é mais heterogênea
geneticamente do que se pensava, e que múltiplos genes poderiam, potencialmente,
causar o distúrbio. Novamente, se debruçaram sobre as variantes genéticas
compartilhadas pelos 10 pacientes e encontraram diversas peças em um confuso
quebra-cabeça. Nove pacientes tinham três genes mutantes, oito exomas
apresentavam seis genes variantes e em sete sequenciamentos havia 16 mutações.
“Nos debruçamos sobre os resultados que encontramos, e tentamos
identificar no exoma dos pacientes variantes genéticas em comum”, explicou ao
Correio o geneticista Jay Shendure, professor da Faculdade de Medicina da
Universidade de Washington e um dos autores do estudo. As análises combinadas
apontaram para o gene mutante MLL2. A duplicação do gene foi encontrada em dois
terços dos casos. Normalmente, o MLL2 codifica uma importante proteína para a
regulação da cromatina, uma estrutura que abriga moléculas de DNA de formas a
permitir que os cromossomos se encaixem dentro do núcleo da célula. Com a
mutação, a cromatina fica inativa e perde sua função.
“Podemos dizer,
com certeza, que as alterações no gene MLL2 são a maior causa da síndrome de
Kaubi, mas temos de sequenciar os exomas de pacientes que não apresentaram essa
variante para encontrar outros genes”, diz Shendure. “Em um terço dos casos, a
mutação não estava presente, apesar de as pessoas examinadas terem nascido com a
síndrome”, lembra. Ainda assim, ele comemora a descoberta. “A partir de agora,
conhecemos melhor a síndrome, o que poderá nos levar ao desenvolvimento de
terapias potenciais para os pacientes.”
Saber ajuda
Para a
publicitária brasileira Silvia Sangaletti Trawny, 36 anos, que mora em Hamburgo,
na Alemanha, os avanços na pesquisa podem facilitar o diagnóstico de outras
crianças. Mãe de Nina, criança de 1 ano e 10 meses que nasceu com a síndrome,
ela diz que, só de saber que a disfunção tem um nome e que é provocada pela
duplicação de um gene específico, as famílias já ficam aliviadas. Nos quatro
primeiros meses de vida da filha, Silvia passou pelas dificuldades dos pais que
não conseguem encontrar uma explicação para as alterações no organismo dos
filhos. “Já percebíamos algum atraso no seu desenvolvimento sem que houvesse
nenhuma explicação para isso. Nossa sorte foi detectar anomalias por acidente em
um exame de raios X do tórax e no ultrassom de seu intestino”, conta.
De
todos os médicos de Nina, o único que conhece a síndrome é o geneticista que a
identificou. “Seus pediatras, neurologista, fisioterapeuta, ninguém conhece.
Logo depois, marcamos uma conversa com a equipe de genétic a do maior hospital
de Hamburgo, o que foi totalmente inútil. Àquela altura, depois de pesquisar
muito na internet, de ler histórias de outras famílias, estávamos muito mais
informados sobre a síndrome que aqueles médicos”, conta. “Passou a ser nossa
função buscar informações sobre a síndrome e ‘educar’ médicos e terapeutas.
Sabemos que também vai ser assim com professores, no futuro. Depois de ler ao
menos 15 histórias de outras famílias, chegamos à conclusão de que o diagnóstico
da Nina foi o mais rápido e o mais fácil de que ouvimos falar.”
Assista a um
vídeo, em inglês, no qual a geneticista Deborah A. Nickerson explica como é
feito o sequenciamento dos exomas.
Depoimento - Silvia Sangaletti Trawny
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