OMS: é impossível conter o
vírus
Organização Mundial de Saúde
pede ao mundo que se prepare para uma pandemia e mantenha “estado
alto de vigilância”. Nível de alerta pode voltar a subir
Rodrigo Craveiro
É tarde para barrar o avanço do vírus da gripe suína. O
H1N1 já se espalhou por três continentes e a Organização Mundial de
Saúde (OMS) pediu ontem ao mundo que se prepare para uma pandemia —
uma doença epidêmica amplamente difundida. “Nós estamos lidando com
uma situação muito séria. Consideram os extremamente séria a chance
de uma pandemia”, afirmou Kenji Fukuda, diretor-geral adjunto para
segurança sanitária e de meio ambiente, durante coletiva de imprensa
realizada na sede da entidade, em Bruxelas. “Estamos realmente em um
período em que os países deveriam se cuidar para a possibilidade de
uma pandemia, especialmente aquelas nações que ainda não estão
lidando com infecções em seu território”, acrescentou. O
especialista explicou que a OMS tem procurado se antecipar ao
impacto de um surto de grandes proporções nos países em
desenvolvimento.
Não está descartada a possibilidade de a
entidade elevar nos próximos dias o nível de alerta de 4 para 5, o
que indicaria infecção humana em larga escala e a iminência de
pandemia. Essa medida depende da confirmação oficial das autoridades
norte-americanas de que o vírus da gripe suína se espalhou de
maneira significativa entre as pessoas. A Prefeitura de Nova York
não descarta que o H1N1 tenha contaminado centenas de estudantes do
centro de ensino médio St. Francis, no bairro Queens.
Fukuda
explicou que é impossível determinar as origens do H1N1 e confirmou
a estratégia de mitigação da doença, um sinal de que a OMS não tem
condições de combater o vírus. “Uma das lições que a história nos
mostrou é que as pandemias podem variar de relativamente moderadas a
extremamente severas. Creio ser prematuro prever o tipo de pandemia
que veremos. É inteiramente possível que tenhamos uma pandemia muito
moderada”, explicou. No entanto, ele lembrou que a pior pandemia do
século 20 ocorreu em 1918 e começou relativamente leve até se tornar
uma das mais graves doenças já registradas. “A coisa mais importante
que podemos fazer agora é manter um estado bastante alto de
monitoramento e vigilância”, aconselhou.
Diante de uma
possível epidemia, a farmacêutica suíça Roche enviou 2 milhões de
kits do antiviral Tamiflu para a OMS e mantém outros 3 milhões nos
depósitos de seu laboratório, com a promessa de encaminhar remessas
aos países necessitados em até 24 horas. Em entrevista ao Correio,
por e-mail, o microbiólogo norte-americano David Topham, co-diretor
do Centro de Excelência de Influenza do Estado de Nova York,
admitiu: “Ninguém sabe se é possível deter esse vírus”. Apesar de
reconhecer a eficiência de drogas antivirais como o Tamiflu, o
especialista defendeu os esforços pela criação de uma vacina.
“Modelos computacionais sugerem que o Tamiflu pode desacelerar a
progressão de transmissão do H1N1, mas a estratégia ideal é o
desenvolvimento da vacina”, disse.
Genética O
principal temor de Topham é de que o vírus H1N1 seja muito
diferente, em termos genéticos, do influenza que circula entre
humanos. “Isso sugeriria que nós temos pouca imunidade, o que
tornaria o vírus de fácil disseminação”, explicou. Até o momento, a
rápida proliferação do H1N1 tem intrigado os cientistas. O vírus
atingiu ontem pela primeira vez a Oceania e o Oriente Médio, com 11
casos na Nova Zelândia e dois em Israel — um jovem e um homem de 47
anos recém-chegados do México. Os neozelandeses infectados são
estudantes de segundo grau de Auckland que também retornaram de uma
visita de três semanas ao México no último domingo.
Consultado pela reportagem, o chinês Yi Guan, diretor do
Laboratório de Doenças Infecciosas Emergentes da Universidade de
Hong Kong, adota um tom menos pessimista. “Ainda não é impossível
conter esse vírus no atual estágio, ainda que ele tenha se expandido para vários países”, garantiu. Segundo ele, os infectologistas
precisam acompanhar prováveis tendências: um aumento dramático no
número de casos nos Estados Unidos; a transmissão entre humanos nos
outros países afetados; uma redução no número de infectados no
México.
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Dúvidas intrigantes
Tudo o que se conhece sobre o vírus H1N1 são o seu
“retrato” — divulgado ontem pelo Centro para Controle de Doenças dos
Estados Unidos (CDC, pela sigla em inglês) — e o fato de que ele
mistura o DNA dos vírus das aves, dos porcos e dos humanos. A
Organização Mundial de Saúde (OMS) ainda não tem ideia de como o
vírus surgiu. A suspeita recai sobre a morte de uma mulher no estado
mexicano de Oaxaca, em 13 de abril. Ela ou alguém com quem teve
contato teria sido infectado ao manusear um porco contaminado no
abatedouro ou na zona rural. Outra questão surge como quebra-cabeças
para os cientistas: por que o vírus H1N1 matou 152 pessoas no México
e não fez nenhuma vítima em outro país?
Para Christian
Sandrock, especialista em doenças infecciosas e pulmonares do Centro
Médico da Universidade da Califórnia, a resposta pode associar o
comportamento de alguns mexicanos ao sistema de saúde do país.
“Creio que os pacientes que acabaram morrendo procuraram ajuda tarde
demais ou, pelo fato de serem de uma classe socioeconômica baixa,
não teriam recebido cuidados médicos adequados”, arriscou o
cientista, em entrevista ao Correio por e-mail. “Eles deviam ter
inclusive outras doenças não detectadas, que os colocava sob risco.”
Yi Guan, diretor do Laboratório de Doenças Infecciosas
Emergentes da Universidade de Hong Kong, acredita que o motivo para
a alta letalidade da “variante viral mexicana” envolveria mecanismos
evolutivos do H1N1. “Normalmente , no estágio inicial depois da
transmissão entre as espécies — de animais para homens —, o vírus é
relativamente mais letal para humanos. Depois da contaminação entre
homens, a virulência cai ou se torna moderada”, comentou. “A
resposta a essa questão está ligada à evolução do H1N1, à adaptação
de um novo hospedeiro e ao nível de imunidade dos hospedeiros.”
Uma compreensão do vírus depende do conhecimento do número
real de pessoas expostas no México. “Se for alto, isso sugeriria que
mu itos têm a doença em estágio moderado ou insignificante, o que
sugere queda na taxa de mortalidade”, afirmou o microbiólogo
norte-americano David Topham. “Os poucos casos nos EUA e em outros
países indicam que o H1N1 não é tão letal. Mas, de qualquer modo,
houve poucos casos fora do México para uma avaliação precisa.” (RC)
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A
única arma contra o mal
O antiviral Tamiflu (fosfato de oseltamivir) é
considerado eficiente no tratamento dos sintomas da gripe suína. A
farmacêutica Roche tem à disposição 5 milhões de kits para o caso de
uma pandemia. A produção mundial é de 400 milhões de kits ao ano.
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