Equipe de pesquisadores do Incor anuncia ter conseguido sucesso de
100% nos testes, em animais, de substância imunizante contra a doença, que
atinge cerca de 15 milhões de crianças a cada ano. Próximo passo será o
experimento com humanos
Silvia Pacheco
Michele Mifano/Divulgação
Pesquisadora no Laboratório de Imunologia: desafio
era evitar que o organismo se voltasse contra o remédio
O Brasil está bem próximo de obter uma vacina contra a bactéria que
causa a febre reumática, uma doença autoimune responsável por problemas
cardíacos em cerca de 15 milhões de crianças todos os anos, no mundo inteiro.
Depois de 20 anos de intensos estudos, os pesquisadores do Laboratório de
Imunologia do Instituto do Coração (Incor), ligado ao Hospital das Clínicas de
São Paulo, conseguiram obter sucesso de 100%, nos testes com animais. No fim de
2011, poderão começar o s primeiros testes em seres humanos. “É uma vitória para
a medicina. Se tudo der certo com os ensaios clínicos em seres humanos, essa
vacina servirá de modelo para outros imunizantes contra doenças autoimunes”, diz
Luíza Guilherme, pesquisadora e doutora em imunologia, que está à frente do
projeto no Incor.
A febre reumática é uma doença decorrente de uma
infecção na garganta provocada pela bactéria Streptococcus pyogenes, que tem
reflexos no coração (veja infografia). A infecção promove a produção de
anticorpos que atacam a bactéria e, ao mesmo tempo, atingem tecidos saudáveis do
corpo. “As proteínas da S. pyogenes são muito semelhantes às proteínas do
coração, das articulações e do sistema nervoso central, daí o comprometimento da
atividade cardíaca provocado pela doença”, explica o cardiologista e coordenador
do Laboratório de Valvupatia do Incor, Max Grinberg. Segundo ele, a bactéria não
causa diretamente a doença, mas desencadeia um processo que faz o organismo
voltar-s e contra si mesmo.
De acordo com Luíza Guilherme, esse processo
ocorre porque as células do sistema imune aprendem a combater a proteína M,
presente na superfície da S. pyogenes, mas a confundem com proteínas dos tecidos
cardíacos e das articulações. “A bactéria pode até ser eliminada do organismo,
mas o sistema imunológico acredita que ela esteja no corpo e ataque os tecidos,
provocando a febre reumática”, disse a coordenadora do projeto.
Para
fazer uma vacina contra a bactéria, os cientistas do Incor buscaram o máximo de
conhecimento para saber como essa doença ocorre no organismo. Eles procuraram
por um trecho que sensibilizasse as células de defesa contra a S. pyogenes. Para
isso, estudaram uma região de 100 aminoácidos na base da proteína M. “Ela é
comum em todos os estreptococos que causam a frebre reumática. Até onde se sabe,
essa região não induz resposta de autoimunidade”, conta Luíza Guilherme. Ou
seja, essa base varia muito pouco nas cerca de 200 cepas (o equivalente
bacteriano a raças) da bactéria e não induz os linfócitos a destruírem proteínas
do corpo humano.
A partir dessa região, os pesquisadores identificaram
55 resíduos de aminoácidos, que formam uma proteína, e com elas fizeram 79
peptídeos (pedaços de proteína). Enquanto isso, recolheram amostras de
linfócitos T de 260 pessoas e soro do sangue de 620 pessoas — que mede a
reatividade dos linfócitos B. “Quando a pessoa tem uma doença autoimune, ela é
causada tanto pela ativação do linfócito B quanto do T, só que de uma forma
inadequada. A busca da vacina foi ter uma resposta desses linfócito T e de
anticorpos produzidos pelo linfócito B que não causassem a febre reumática”,
explica Luíza Guilherme.
Depois das análises, os cientistas do Incor
encontraram na proteína M um trecho capaz de induzir o corpo a produzir
anticorpos contra a bactéria e passaram a testá-las em animais. “Essa região tem
um potencial de produzir anticorpos que, aparentemente, têm capacidade
protetora”, afirma a coordenadora do projeto.
Eficácia Os
testes foram feitos em diferentes linhagens de camundongos e todos eles
produziram altos títulos de anticorpos. Em dois testes diferentes, camundongos
foram vacinados e receberam uma quantidade de bactérias que normalmente seria
suficiente para matá-los. Em ambos os testes, os camundongos não desenvolveram a
febre reumática. “Observamos que esses animais produziam altos níveis de
anticorpos, tinham reatividade do linfócito T, mas não reconheciam proteínas de
tecido cardíaco”, diz Luíza Guilherme.
Após os resultados, os
pesquisadores resolveram testar a eficácia em pequenos porcos, de 20kg a 30kg,
que, do ponto de vista biológico, são próximos aos seres humanos. Como esses
animais não desenvolvem a febre reumática, foi injetada uma dose alta com
bactéria nos animais, para que fosse desenvolvido um tipo de abcesso. Nos testes
com seis porcos, foram obtidos altos níveis de anticorpos e nenhum tip o de
reação adversa foi encontrada nos órgãos analisados. “Os resultados nos
mostraram que há uma grande chance de que possamos induzir nos humanos uma boa
proteção, sem causar reações adversas e autoimunidade”, comemora a doutora em
imunologia.
Para que a expectativa quanto aos testes em humanos se
concretize, os cientistas estão envolvidos, agora, com a preparação da
documentação que será submetida à Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa). “Estamos preparando os documentos necessários exigidos pelas leis que
regulamentam medicamentos testados em humanos, para dar início aos ensaios
clínicos. Como é uma vacina que será aplicada em crianças, os testes devem
demorar até cinco anos”, informa Luíza Guilherme. Os ensaios, feitos em
voluntários, vão mostrar com qual intensidade a vacina é capaz de induzir uma
resposta no corpo humano e as reações que pode provocar.
A febre
reumática atinge, principalmente, crianças, a partir de 5 e 6 anos, e
adolescentes, e co meça com uma infecção na garganta. Se o problema não for
tratado, o paciente fica com sequelas. Entre 1% e 5% das crianças adquirem dores
nas articulações. Dessas, entre 30% e 40% acabam desenvolvendo problemas
cardíacos. “Quando partes do tecido cardíaco já foram destruídas, o paciente
pode ser salvo somente por meio de uma cirurgia — em geral, de troca das
válvulas mitral ou aórtica, com alto custo e possíveis sequelas”, explica Max
Grinberg.
É uma vitória para a medicina. Se tudo der certo
com os ensaios clínicos em seres humanos, essa vacina servirá de modelo para
outros imunizantes contra doenças autoimunes”