Médicos
advertem pacientes sobre os riscos do uso indiscriminado de medicamentos à base
de corticoides. Mesmo que sejam de fundamental importância para o tratamento de
asma, urticária e doenças crônicas, eles só devem ser indicados por
especialistas
Rayanne Portugal
Especial para o
Correio
Cadu Gomes/CB/D.A Press
Lenna Cristalino usou remédios à base de
corticoides sem prescrição médica e foi parar no hospital. Agora ela só
compra o medicamento com receita
Usar medicação à base de corticosteroides sem acompanhamento médico
pode trazer uma série de preocupações e problemas extras ao paciente que trata
de inflamações, alergias e sintomas autoimunes. Presente desde pomadas para
irritações na pele, bombinhas para asma, comprimidos para tratamento de
urticárias até doenças crônicas relacionadas ao sistema imunológico, os
corticoides são considerados fármacos de rápida resposta, essenciais em
tratamentos de imunossupressão(1). No entanto, especialistas
alertam sobre a necessidade do acompanhamento médico para quem toma esse tipo de
medicação, responsável por diversos efeitos colaterais. “Quando usado pelo tempo
certo, em dose e potência corretas, o corticoide é eficiente e preciso. Não é
preciso ter medo”, afirma Marly da Rocha Otero, presidente da Associação
Brasileira de Alergia e Imunopatologia no Distrito Federal.
No entanto,
devido à facilidade de compra, sem necessidade de receita mé dica, várias
pessoas fazem uso prolongado da medicação. “Qualquer coceira vira motivo para
comprar uma pomada, comprimidos são usados para alergia respiratória sem
critérios, entre outros casos, mas isso é um erro”, explica a médica. A analista
de contas Lenna Cristalino dos Santos, 40 anos, fez uso de prednisona durante 10
dias sem recomendação médica para tratar de urticárias que apareceram no corpo.
“Fui ao pronto-socorro depois de cinco dias de coceira e ardência na pele. Mas
não tenho certeza do que causou o problema”, conta Lenna.
Ela afirma
que o médico prescreveu uma injeção — aplicada no momento da consulta para
diminuir a reação — e comprimidos de prednisona a serem administrados por cinco
dias. “O efeito foi rápido. Como ainda restavam algumas erupções, resolvi tomar
o remédio por mais tempo. Não sabia que isso poderia me fazer mal. Em nenhum
momento fui informada que não deveria prolongar o tratamento, nem pelo médico
nem pelo farmacêutico que me vendeu o remédio.”
Segundo Priscila
Parente, farmacêutica clínica, a administração de corticoides para casos de
inflamação e alergias não deve ser prolongada. Tomar remédios além do tempo
estipulado, como Lenna fez, pode ser perigoso. “É importante seguir à risca o
que foi prescrito. Tratamentos desse tipo não costumam ultrapassar os 10 dias de
medicação. Em emergências, alguns médicos receitam o corticoide para aliviar
sintomas rapidamente. Mas é essencial que a paciente procure um profissional após isso, com o objetivo de identificar o porquê da irritação na pele.”
Aparências Para Priscila, prolongar a medicação pode ser
grave, já que provavelmente ela não está tratando o motivo da alergia ou da
inflamação, apenas diminuindo os sintomas. “O paciente precisa de um atendimento
individualizado. Nenhum medicamento vai ser isento de efeitos colaterais e só um
profissional pode avaliar qual é aquele que melhor vai se adaptar ao
tratamento.”
Um dos riscos do uso incorreto de corticosterides está no
fato de que a medicação pode confundir o sistema imunológico, a longo prazo.
Essas substâncias são sintetizadas a partir do hormônio cortisol (veja arte),
produzido pela glândula suprarrenal. Quando a medicação é administrada por mais
de um mês, por exemplo, essa glândula pode entender que não é mais necessário
produzir sua cota do hormônio.
Natasha Ferraroni, alergologista e
imunologista, explica que ao parar o tratamento, o paciente vai ter o cha mado
efeito rebote, decorrente do uso incorreto de corticoides. “A doença pode voltar
repentinamente porque o sistema de defesa do corpo fica debilitado. A pessoa
fica suscetível a inflamações, e infecções podem ocorrer sem apresentarem
sintomas”, explica Natasha.
1 - Indispensável Ums das
principais aplicações dos corticoides é provocar a imunossupressão (ato de
reduzir a atividade ou eficiência do sistema imunológico) em pacientes
transplantados. Nesses casos, o si stema imunológico está tentando se defender
contra alvos existentes no próprio indivíduo. A medicação vai reduzir os
sintomas de autoimunidade e o organismo para de combater o problema. A
imunossupressão é geralmente feita para diminuir rejeição a transplantes de
órgãos, tratamento de reações alérgicas ou doenças autoimunes.
Medicação controlada
As especialistas ressaltam a importância do acompanhamento médico em
casos em que é necessário o tratamento prolongado com remédios que contenham
corticosteroides. “As taxas de sódio, potássio, cálcio e glicose ficam
irregulares com a presença do corticoide no organismo. Alguns pacientes,
inclusive, podem apresentar arritmias, aumento de peso e processo de
cicatrização deficiente, além do afinamento da pele. Isso ocorre quando são
usadas pomadas e cremes à base de corticoide”, explica Priscila Parente.
Segundo ela é importante ter acompanhamento médico para auxiliar na
redução dos efeitos negativos da medicação sem que o portador de doenças
crônicas, transplantados e pacientes oncológicos sofram com reações adversas.
“Dentre os imunossupressores, o corticoide é um dos mais indicados e com menos
efeitos colaterais. Quando o paciente tem acompanhamento de qualidade e não toma
medicação indevidamente, com suplementos para equilibrar as taxas de sódio e
potássio, controle de glicose, por exemplo, é possível garantir sua qualidade de
vida”, afirma a farmacêutica.
A aposentada Iza Akemi Yossugo, 55 anos,
fez transplante de rim há 10 anos e desde então precisa tomar prednisolona
(fármaco derivado da prednisona, do grupo dos anti-inflamatórios esteroides)
para reduzir a possibilidade de rejeição. “Nunca tive efeitos fortes. Meu volume
de pelos pelo corpo aumentou um pouco e tenho sensação de inchaço constante.
Fora isso, está tudo normal ”, conta Iza.
Diabética e hipertensa, Iza
integra um grupo de risco para uso de corticosteroides, já que o medicamento
pode alterar os níveis de pressão arterial e de glicose. Mas ela afirma que
cuida da saúde com rigor e não faz nada sem que seu médico saiba. “Faço check-up
há cada três meses desde o transplante. Minha glicose, colesterol, hipertensão,
taxa de cálcio e pressão intraocular estão todos em níveis saudáveis”, revela a
aprosentada. (RP)
É essencial que o paciente procure um
profissional após isso (reações) com o objetivo de identificar o porquê da
irritação na pele”