A porfiria
provoca, nos casos mais graves, aversão à luz, aumento dos pelos e retração das
gengivas, o que deixa os dentes mais expostos e gera a comparação. Os sintomas
estimulam muito preconceito em relação aos atingidos
Igor Silveira
Gustavo Moreno/CB/D.A Press
Helena perdeu uma irmã para a doença: depois,
atingida pelo mal, chegou a ficar em uma cadeira de rodas, até conseguir
se recuperar
A quantidade de pessoas que desenvolve a doença é pequena, algo em
torno de uma em 100 mil no Brasil. O conhecimento sobre a enfermidade é ainda
menor. A dificuldade no diagnóstico e o preconceito, no entanto, são enormes. A
porfiria, distúrbio de caráter genético causado por uma deficiência de enzimas
no organismo, sempre foi cercada por uma aura tão misteriosa que, segundo
historiadores, os mitos da existência de vampiros e lobisomens surgiram por
causa dela. Isso por que, em casos mais graves da disfunção, o paciente
desenvolve fotofobia (aversão à luz), a quantidade e a espessura dos pelos ficam
maiores e as gengivas se retraem, deixando os dentes expostos. Nos tipos mais
comuns de porfiria, os sintomas vão de dores agudas no abdome a fraqueza
muscular, passando por náuseas e confusão mental. Todas essas alterações no
estado de saúde da pessoa dificultam bastante a descoberta do problema.
A funcionária pública Helena Lopes Santiago, 45 anos, perde u a irmã
Edna, com 25, por causa da doença. A jovem não resistiu aos efeitos da porfiria,
que se tornaram latentes após uma cesariana. Em 1993, aos 29 anos, foi Helena
quem passou a se sentir mal constantemente. As dores musculares eram
insuportáveis. A sensação de que a pele estava queimando causava alucinações.
Ela teve paralisia nos membros inferiores e superiores. Durante o período de
crise, inúmeros médicos foram consultados e ela passou por muitos exames. Nenhum
conclusivo. Quando, finalmente, uma médica fez o diagnóstico de porfiria,
Helena estava presa a uma cadeira de rodas e com dificuldade na fala.
“Depois que me recuperei, escrevi um livro sobre essa experiência forte
que experimentei. Meus sentimentos foram testados por vários prismas e com
intensidade absoluta. Por isso, meus preconceitos foram deixados para trás e os
valores pessoais acentuados e impregnados em mim. Minha alma ficou marcada para
sempre”, afirma a funcionária pública. “Descobri que viver é uma dádiva e que
não fomos gerados para só passar pela vida. Penso que desfrutar da vida que Deus
nos deu significa desenvolver nossas habilidades, emoções, sensações, fé e a
capacidade de interação com as pessoas.”
Helena aprendeu a conviver com
a doença, embora tenha de respeitar limitações e seguir uma lista de instruções
como evitar estresse, não engravidar, não fazer dieta para perder peso e ficar
atenta a remédios contraindicados para ela.
A principal dificuldade no
tratamento da porfiria é identificar a doença. Com muitos sintomas iguais aos
de outras enfermidades, nem sempre os pacientes são medicados de maneira
correta. O médico geneticista Charles Lourenço, do Hospital das Clínicas de
Ribeirão Preto, São Paulo, é especialista em porfiria. De acordo com ele, muitos
médicos não consideram a possibilidade da doença por se tratar de algo
relativamente raro. Ainda segundo Lourenço, o número de pessoas que carregam os
genes causadores do problema é muito baixo e, ainda assim, 70% dos portadores
nunca vão desenvolver qualquer tipo de porfiria. “Na maioria dos casos, a
interação com meios externos é determinante para que as crises ocorram. Depois
de diagnosticado e tratado o problema, os pacientes têm grandes chances de levar
uma vida normal”, explica.
Preconceito O preconceito que
permeia a vida dos que convivem com porfiria tem algumas explicações. A primeira
delas é que, por causa do difícil diagnóstico, muitos pacientes são tidos com o
hipocondríacos, exagerados ou até mesmo malucos. No caso mais grave e raro da
doença, a porfiria eritropoiética congênita, o corpo sofre deformações,
principalmente, pela exposição à luz do sol. “Sei de pacientes que passaram por
cirurgias para a retirada do apêndice, porque as dores abdominais foram
confundidas com apendicite. No caso da porfiria eritropoiética congênita, a
sensibilidade à luz é tão grande que a exposição pode destruir ossos e causar
lesões de pele debilitantes”, afirma o geneticista Charles Lourenço. O aspecto
dessas lesões cutâneas também é apontado como um dos grandes responsáveis pelo
preconceito contra portadores de porfiria.
É exatamente pelo receio do
preconceito da sociedade que uma aposentada de 57 anos, moradora de Brasília,
pediu para não ser identificada. Ela conta que passou duas décadas com problemas
de saúde que não eram solucionados. Consultou médicos da capital federal, de São
Paulo e do Rio de Janeiro, mas ninguém conseguia descobrir a causa dos
sintomas. “Eu sabia que tinha alguma coisa muito séria e fiquei bastante
deprimida por não receber o tratamento correto. Há um ano, uma médica fez uma
pesquisa mais apurada do meu histórico e notou que eu precisei tomar doses de
hormônios para sustentar uma gravidez. Aí estava a chave do segredo”, destaca a
mulher.
Atualmente, a aposentada está bem. Conviver com a porfiria não é
mais o pesadelo de outrora e as crises de ansiedade desapareceram. “Graças aos
médicos e à minha família, consegui vencer a luta contra a doença. Mas foi
muito difícil”, diz. Textos publicados na página eletrônica da Associação
Brasileira de Porfiria (www.porfiria.org) ensinam que o primeiro passo para as
pessoas que enfrentam os problemas causados pela doença é procurar um médico e
se manter longe de fatores que podem desencadear as crises de porfiria. Além
disso, o órgão ressalta que os doentes precisam de acompanhamento médico em
diferentes especializações, como hematologia, dermatologia e psicologia.
No caso da porfiria eritropoiética congênita, a
sensibilidade à luz é tão grande que a exposição pode destruir ossos e causar
lesões de pele debilitantes”