
Uma pesquisa realizada pela
Universidade de Brasília (UnB) traz esperança para os pacientes que passam pelo
doloroso tratamento do câncer. Experimentos demonstram que a
nanobiotecnologia(1) pode reduzir os efeitos colaterais de
medicações. Isso por m eio de técnicas que permitem a aplicação da dose correta
da droga diretamente nos tecidos ou células doentes, sem sobrecarregar o
organismo com doses massivas, o que ocorre particularmente com os
quimioterápicos para câncer.
O trabalho é desenvolvido em rede nacional
pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Nanobiotecnologia. Na UnB, as
pesquisas estão concentradas na aplicação biomédica das nanopartículas, fazendo
com que elas levem diretamente à célula tumoral a dose de qui mioterapia, sem
atingir outros órgãos e tecidos. Dessa forma, os efeitos colaterais do
tratamento são minimizados. As nanopartículas se transformam em transportadores
de remédios com a missão de direcionar o medicamento à fonte do problema.
“Muitas vezes, o doente morre por conta do tratamento, não pela doença”, diz
Flávia Arruda Portilho, bióloga e uma das pesquisadoras envolvidas no estudo. As
aplicações são feitas para o tratamento dos cânceres de mama, intestino, ovário
e pulmão.
“ Hoje, é bastante plausível o uso de nanossistemas para a
veiculação de drogas, como os que se baseiam em nanopartículas. Esses sistemas
ficam especialmente interessantes se forem construídos a partir de
nanopartículas magnéticas (NPMs)”, revela a coordenadora do estudo na UnB,
Zulmira Lacava.
As NPMs podem se apresentar sob diferentes formas. Uma
delas é a de fluidos magnéticos: suspensões com um núcleo de ferro envolvido por
uma cobertura feita com material biologicamente ativo. É nes sa cobertura que o
medicamento é colocado. Depois, utilizando um ímã (que atrai o núcleo de ferro),
os médicos conseguem direcionar a nanopartícula com o remédio para o órgão a ser
tratado (veja arte). As NPMs também devem ser biocompatíveis, sem representar
perigo ao organismo. Para chegar aos resultados sobre essas nanopartículas, a
equipe de cientistas fez testes com camundongos.
Esse processo, segundo
a bióloga Flávia Portilho, além de reduzir os efeitos colaterais dos medicamento
s, faz com que o tratamento se torne mais eficaz. Isso porque as NPMs carregam
para dentro do tumor a dose correta do quimioterápico, fazendo com que ele não
se perca no organismo. “Podemos administrar, por exemplo, 5g de um medicamento
na veia do paciente, mas só metade da droga chega ao tumor. O medicamento se
perde no organismo, fica em alguns órgãos e tecidos”, explica a bióloga. Em
alguns camundongos, a equipe observou uma diminuição do tumor considerada
satisfatória.
Outras té cnicas
Além do processo com a
utilização do ímã no direcionamento das NPMs, a equipe também testa outras duas
técnicas que deram resultados satisfatórios. A primeira delas é o processo de
carregamento de drogas por meio da cobertura, uma técnica que intriga os
pesquisadores. A substância da qual é feita a cobertura tem uma afinidade com
certos tipos de tecido que os cientistas ainda não sabem explicar. “Não sabemos
o porquê dessa afinidade. Só sabemos que a nanopartícula viaja, por meio do
sistema circulatório, até o tecido com o qual ela tem a tal afinidade”, diz a
biomédica Luciana Landim Carneiro Estevanato.
Ela relata que NPMs
recobertas com a proteína albumina têm uma afinidade com os tecidos do cérebro
e, com isso, podem levar a droga diretamente para o órgão. “No cérebro, há uma
barreira entre o sangue e o órgão, que seleciona o que vai entrar. NPMs com a
albumina conseguem atravessar essa barreira”, explica Luciana. A outra técnica
utiliza as NPMs com antico rpos, moléculas capazes de reconhecer o tumor. Assim,
os anticorpos levam o medicamento até o tumor. “O melhor é que todas essas
técnicas podem ser usadas em conjunto, dependendo do resultado que se quer
obter”, comemora a especialista.
Para o vice-presidente da Sociedade
Brasileira de Oncologia Clínica e o oncologista da clínica Ceon, do Hospital
Anchieta, Anderson Silvestrini, o uso dessas nanopartículas pode resultar em um
tratamento mais eficiente contra o câncer. “Os remédios hoje são muito tóxicos.
Se boa parte dessa toxicidade fosse evitada, poderíamos usar concentrações
maiores de drogas-alvo diretamente no tumor.” Todo esse processo, porém, ainda
está em âmbito de laboratório, com testes apenas em animais. “Há poucos anos foi
reportada uma primeira tentativa clínica de carreamento magnético de droga
anticâncer que obteve sucesso em 50% dos pacientes terminais testados”, diz a
coordenadora da pesquisa.
1 - Escala
A nanobiotecnologia
trabalha com a manipulação de átomos em escala nanométrica, ou seja, em uma
escala 1 milhão de vezes menor que o milímetro, espaço suficiente para acomodar
no máximo 10 átomos. Como um exemplo comparativo, um fio de cabelo possui um
diâmetro que varia de 30 mil a 100 mil nanômetros.