Compra de medicamento ainda não
testado no país contra a doença de Gaucher assusta portadores da enfermidade,
que estão preocupados com possíveis efeitos colaterais
Renata Mariz
Adauto Cruz/CB/D.A Press
T.A.S. não sabe se o novo medicamento comprado
pelo governo será eficaz no controle da doença de Gaucher
Seiscentos e 10 pacientes de gaucher, uma doença rara que pode levar
à morte, foram pegos de surpresa com a aquisição de 54.400 frascos do
medicamento taliglucerase alfa feita recentemente pelo Ministério da Saúde. O
remédio substituirá o imiglucerase, droga utilizada até o momento com boa
resposta. O motivo da compra realizada sem licitação no valor de R$ 57,8 milhões
é que a única fabricante do medicamento tradicional, a Genzyme, sofreu um
problema de contaminação em seus tanques e não poderá, segundo documentos
apresentados pela pasta, fornecer as doses que o Brasil precisa. A empresa,
porém, afirmou por meio de nota que há “disponibilidade imediata” do remédio.
No meio do fogo cruzado estão pacientes como T.A.S., portador de Gaucher
e dependente do imiglucerase. “Tenho medo dos efeitos colaterais, gostaria de
saber se essa nova droga vai mesmo controlar a doença. Precisamos de
informações”, afirma o rapaz de 27 anos. O temor vem do fato de o tali glucerase
alfa ter registro para uso emergencial e temporário apenas na França. No Brasil,
o Ministério da Saúde conseguiu que a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa)
publicasse uma autorização semelhante, com base em um estudo de fase III (com
humanos) no qual participaram 31 pessoas que sofrem da doença. Além disso, o
governo argumenta que o medicamento é utilizado com sucesso há três anos em
Israel e na África do Sul. O remédio é fruto de uma parceria entre a Pfizer e a
israelense Protali x.
“O ministério está tranquilo com a decisão tomada
numa crise mundial em que não temos o produto mundialmente fornecido”, diz José
Miguel do Nascimento Junior, diretor de Assistência Farmacêutica do Ministério
da Saúde. Ele diz estranhar o fato de a Genzyme, “depois de publicada a compra
com a outra empresa”, dizer que pode fornecer o medicamento. “Antes, eles haviam
informado que só poderiam entregar 30%”, critica. Para Maria Cecília Oliveira,
presidente da Associação dos Familiares , Amigos e Portadores de Doenças Graves,
seria melhor comprar a parcela disponível do remédio tradicional e completar o
resto da demanda com a droga miglustate, aprovada pela Anvisa desde 2005. “O
paciente será feito de cobaia, com um medicamento sem aprovação, e o ministério
ainda vai pagar por isso?”, questiona.
Genética A doença de
Gaucher é uma enfermidade genética relacionada com o metabolismo dos lipídios.
As principais características são um aumento do fígado e do ba ço, anemia,
diminuição do número de plaquetas e problemas ósseos.