CÉLULAS-TRONCO
Cientistas criam células hepáticas em laboratório

Tamir Rashid/Divulgação
Imagens de células hepáticas divulgadas pelos Cientistas: possibilidade de estudar melhor doenças do fígado
 

Ao criar células hepáticas doentes a partir de uma pequena amostra do tecido da pele humana, cientistas conseguiram mostrar, pela primeira vez, que as células-tronco podem ser usadas como modelo para diversos tipos de distúrbios hereditários. Os pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, acreditam que a descoberta poderá levar a novos tratamentos para quem sofre de males do fígado. O estudo foi publicado ontem no Jornal de Investigações Clínicas.
Como as células hepáticas não podem ser cultivadas em laboratório, pesquisar doenças do fígado é extremamente difícil. Daí a importância de os cientistas — financiados pelo instituto Wellcome Trust e pelo Conselho de Pesquisas Médicas — terem conseguido criar essas estruturas a partir da pele de pacientes que sofrem de diversos males hepáticos.

Além de conseguir entender exatamente o que acontece com as células doentes, eles poderão testar a efetividade de novas terapias para tratar condições que afetam o órgão. A esperança é que a descoberta leve a tratamentos sob medida para os pacientes e, eventualmente, possa servir de base para o desenvolvimento de terapias celulares, quando as células do paciente com doenças genéticas são retiradas, curadas e transplantadas novamente.

O médico Ludovic Vallier, do Centro de Células-Tronco e Medicina Regenerativa da Universidade de Cambridge, principal autor da pesquisa, diz que o trabalho “representa um importante passo em direção às promessas clínicas das células-tronco”. “Porém, mais pesquisas precisam ser feitas, e nosso grupo está comprometido com esse objetivo, aumentando o conhecimento necessário para o desenvolvimento de novas terapias”, acrescenta.

Na pesquisa, a equipe de cientistas fez biópsias da pele de sete pacientes com diversos tipos de doenças hepáticas hereditárias e de três indivíduos saudáveis, que compuseram o grupo de controle. Então, eles reprogramaram as estruturas retiradas das amostras e as implantaram em células-tronco, usadas para gerar estruturas hepáticas doentes e saudáveis (no caso do grupo de controle).

Segundo Tamir Rashid, do Laboratório de Medicina Regenerativa da Universidade de Cambridge, um dos autores do texto, é necessário criar estratégias alternativas ao transplante de fígado doado por humanos. “Nosso estudo aumenta a possibilidade de essas alternativas serem descobertas, tanto usando novas drogas ou a partir de uma abordagem de terapias celulares”, diz.

Alternativa
Convidado pela universidade para comentar o estudo, o especialista em doenças hepáticas e professor do Imperial College de Londres Mark Thursz mostrou-se animado. “O desenvolvimento de células hepáticas a partir das células-tronco é um avanço significativo na batalha contra as doenças do fígado. Essa tecnologia promete, a curto prazo, fornecer novas ferramentas para explorar a biologia das doenças do órgão e, a longo prazo, pode representar uma fonte em potencial de reposição de células para pacientes com falência hepática.”

No Brasil, as doenças hepáticas são a segunda maior causa de morte entre homens de 35 a 59 anos, e a oitava entre as mulheres. Já no Reino Unido, doenças do fígado são a quinta maior causa de morte, depois de doenças cardiovasculares, câncer, ataques cardíacos e distúrbios respiratórios. Nos últimos 30 anos, a mortalidade provocada por males hepáticos em jovens e adultos de meia-idade aumentou mais de seis vezes no país, com um crescimento de óbitos de 10% a cada ano. É estimado que, em 2012, os ingleses registrem as maiores taxas de mortalidade decorrentes de doenças do fígado na Europa e, sem ações para conter o avanço do mal, elas podem tomar o lugar dos enfartes e das doenças coronarianas como a principal causa mortis nos próximos 10 a 20 anos.