CAPOTERAPIA Gingas saudáveis
Modalidade que reúne noções de terapia ocupacional e
capoeira ganha força entre os que passaram dos 50
Elisa Tecles
| Fotos: Monique Renne/CB/D. A Press/D.A
Press |
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A identidade de Aliete revela 70 anos,
mas a elasticidade lembra a de uma adolescente. Além de
capoterapia, ela pratica dança de salão, coral e teatro.
“Antes eu não vivia, vegetava”
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Todos cantam, dançam e se exercitam
respeitando os limites do corpo
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| | Capoeira: Jogo atlético constituído por um sistema de
ataque e defesa, de caráter individual e origem folclórica
genuinamente brasileira, surgido entre os escravos procedentes de
Angola no Brasil colônia, e que, apesar de intensamente perseguido
até as primeiras décadas do século 20, sobreviveu à repressão e hoje
se amplia e se institucionaliza como prática desportiva
regulamentada.
Terapia ocupacional: Aquela em que se procura
desenvolver e aproveitar o interes se do paciente por um determinado
trabalho ou ocupação. (Novo Dicionário Aurélio)
A
soma dos dois conceitos parecia impensável. Quem iria se tratar
praticando golpes ao som do berimbau? Há 10 anos, Gilvan Alves de
Andrade, mais conhecido como mestre Gilvan, provou que a mistura de
capoeira e terapia dava certo. Em palestras sobre qualidade de vida,
ele ensinava a ginga aos visitantes. O trabalho fez sucesso entre o
público da terceira idade e ganhou nome de capoterapia. Hoje, a
atividade é realizada em 11 pontos do Distrito Federal e ajuda cerca
de 22 mil idosos em todo o país.
“É uma atividade bem
brasileira e está tirando o idoso de casa. É uma terapia com base na
capoeira, mas não cobro saltos nem nada complicado”, explicou o
mestre Gilvan. Durante os encontros, os alunos se reúnem em torno do
mestre e repetem os movimentos que ele faz. Eles agacham, levantam e
se alongam no ritmo de canções tradicionais. Cada um faz o que pode,
de acordo com as limitaçõe s. A aula termina com palmas e suor
escorrendo no rosto dos capoeiristas.
Há cadeiras espalhadas
por toda a sala onde Gilvan aplica a terapia, na QNL 30 de
Taguatinga, mas ninguém quer ficar sentado por muito tempo. A
aposentada Aliete Lima Liberal, 70 anos, sai cedo de casa e pega
dois ônibus para não perder a aula. Ela entrou na capoterapia há
oito anos e ganhou ânimo para praticar dança de salão, coral e
teatro. “Antes disso, eu não vivia, vegetava. Saía para andar e me
perdia, toma va remédio para a coluna. Não foi difícil aprender a
capoeira, isso faz é bem.”
Pessoas entre 50 e 90 anos
procuram a capoterapia para aliviar a artrite, depressão, pressão
alta e outros problemas. Quem quer apenas fazer amigos e praticar
uma atividade física também está convidado — os encontros são
gratuitos e abertos ao público. “O resultado é importante na
qualidade de vida e autoestima. O idoso começa a levantar o braço,
tirar o pé do chão e daqui a pouco está no meio da roda”, afi rmou
Gilvan. Não há idade mínima ou máxima para participar, mas é
importante que o aluno faça acompanhamento médico.
Adeus,
depressão O maior desafio do mestre Gilvan não é ensinar os
passos da capoeira aos idosos, mas tirá-los de casa. O aposentado
Luiz Martins, 70 anos, entrou em depressão depois de sofrer
descolamento de retina. Ele perdeu a visão de um olho e enxerga
pouco com o outro. As sequelas da artrite dificultavam a locomoção.
“Era um sofrimento”, resumiu. Tantos problemas tiraram a vontade de
Luiz de sair na rua. Incentivado pela esposa, ele experimentou a
capoterapia. “No começo, eu não podia fazer todos os movimentos, mas
insisti e deu certo. Isso aqui faz bem para o corpo e a mente”,
completou. A convivência com o grupo levou embora a depressão e hoje
o aposentado se considera mais alegre e comunicativo. “Agora estou
na campanha para trazer mais homens para a aula!”, adiantou Luiz. A
iniciativa tem fundamento: a maioria dos capoeiristas é mulher. Qu
ando chega na hora da roda, não tem par para todo mundo e as alunas
se juntam para dançar.
Os idosos mantêm o contato até fora
do horário de aulas. O grupo organiza viagens pelo Brasil e já
passou por cidades do Nordeste, Rio de Janeiro e Goiás. Eles se
preparam para o próximo destino: Caldas Novas (GO). As viagens com
os amigos são um dos programas mais esperados pela aposentada Sílvia
Sales, 63 anos. É a chance de conhecer lugares novos, praticar a
capoterapia e dançar muito nas fes tas. “A gente brinca, ri, fala
besteira. É uma alegria! E eu gosto muito de balançar o esqueleto”,
disse.
Em uma dessas excursões, a aposentada conquistou o
título de melhor dançarina do créu graças à elasticidade adquirida
na capoterapia e nas aulas de ginástica. Sílvia não para: faz
ginástica às segundas, quartas e sextas-feiras e pratica a terapia
baseada na capoeira às terças e quintas. Nem se lembra mais da
antiga osteoporose e da dor na coluna que assolavam a vida da
aposentada. “Passo o dia todo subindo e descendo a escada lá de
casa. Faço qualquer movimento!”, revelou. A ginga da capoeira vem
dos trabalhadores escravizados no Brasil. No meio de uma roda, duas
pessoas executam golpes no ritmo do berimbau. Em 2008, o Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou a
capoeira como patrimônio cultural imaterial brasileiro. Outras 14
tradições do país possuem o título, como o frevo, a Feira de
Caruaru, o queijo minas artesanal e o Círio de Nossa Senhora de
Nazaré. |
Agenda
As aulas de
capoterapia são gratuitas e abertas ao público. Para participar,
basta ir a um dos locais na hora marcada. Se o visitante gostar, ele
preenche uma ficha e vira aluno regular.
SEGUNDA-FEIRA
8h — Centro de Saúde 5 de
Ceilândia 9h30 — Igreja São Lucas, Águas Lindas
TERÇA-FEIRA
8h — QNL 30, Conjunto A, Lote 31,
Taguatinga 8h — Paradão da QNL/QNJ, Taguatinga
QUARTA-FEIRA
7h30 — Praça do Bicalho,
Taguatinga 8h — Galpão Bernardo Sayão, M Norte
QUINTA-FEIRA
8h — QNL 30, Conjunto A, Lote
31, Taguatinga 8h — QNA 39, Taguatinga
SEXTA-F
EIRA
8h — Policlínica, Taguatinga Centro 10h —
Universidade Católica de Brasília, Taguatinga
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