Apocalipse, não

Silvio Queiroz
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Inevitável que venham à lembrança nesses dias cenas de filmes de ficção científica — foi o que contaram os que estiveram na Cidade do México, foco da gripe suína que projeta a sombra de um bis da temida gripe espanhola, a peste do século 20. Deve ser mesmo impressionante, assustador, circular por uma baita metrópole daquelas com cenário de cidade-fantasma, as pessoas escondidas naquelas máscaras que lembram intuitivamente hospital, doença, emergência. É infinitamente mais forte do que uma notícia, ainda que ao vivo pela TV.

Epidemias mexem com elementos remotos do consciente coletivo — ou como se queira chamar esse fenômeno que faz se sobreporem na mente, nessa hora, imagens atuais com representações do que foram, por exemplo, as pestes que dizimaram a Europa na Idade Média. “Peste”, aliás, é o nome de um dos quatro cavaleiros do apocalipse (os demais: morte, guerra e fome), que por sua vez se identifica com a idéia de “fim do mundo” derivada do evangeli sta João. E esse, afinal, se remetia ao juízo final bíblico dos hebreus.

No fundo, como já aconteceu quando a epidemia da Aids irrompeu, a gripe suína expõe nossas fragilidades humanas, mas igualmente nosso potencial evolutivo. Não aquele derivado grosseiramente de Darwin, como se apenas “os mais fortes” tivessem lugar no mundo. O caso é que, até aqui, cada uma dessas ameaças ao nosso gênero exigiu respostas, que por sua vez nos capacitaram a entender melhor quem somos, como vivemos — e como e por que morremos. Como resultado, pudemos viver (e morrer) melhor.

Interessante lembrar como esse mesmo vírus solerte da gripe, que parece jogar conosco uma espécie de batalha existencial e evolutiva, foi nosso salvador em uma dessas fantasias da ficção. Foi nossa arma contra o poderio insuperável dos marcianos invasores na Guerra dos Mundos. Em outras alegorias, o combate a alguma doença potencialmente devastadora borrou fronteiras físicas e políticas entre nações e países — foi agente de uma transformação histórica.

Aqui, talvez, a arte aconselha e orienta a vida. Responder globalmente à pandemia é a chance de transformar um apocalipse em uma nova aliança e um renascimento.