Brasil analisa 25 casos

Moradores de 10 estados e do df estão sob observação médica, mas autoridades não os classificam como suspeitas

Rodrigo Couto

Subiu para 25 o número de casos no Brasil sob observação médica por conta da epidemia de gripe suína, embora o Ministério da Saúde não classifique nenhum deles como suspeito, segundo os parâmetros da Organização Mundial de Saúde (OMS). Os últimos cinco não foram incluídos no balanço divulgado no início da noite pelo Gabinete Permanente de Emergências criado pelo governo federal, e entre eles estão três pessoas de Goiânia e outra que procurou atendimento no Gama (leia mais n a página 23). O ministro José Gomes Temporão, que retornou da Turquia para coordenar as ações preventivas, fornece hoje detalhes das medidas, entre elas a designação de 52 hospitais no país para atender emergências. O ministério dispõe de kits do medicamento Tamiflu, indicado pela OMS, em quantidade suficiente para tratar 9 milhões de pacientes.

Sem revelar nomes, o diretor do Hospital de Doenças Tropicais de Goiânia, Boaventura Braz, informou ao Correio que o marido da mulher e pai da menina, ambas internadas e isoladas desde às 16h de ontem na unidade, voltou há 11 dias da Cidade do México e apresentou sinais da doença. “Ele chegou a apresentar alguns sintomas, mas não está internado porque não apresenta mais nenhuma indicação de que esteja doente.” A mulher, de 29 anos, e a filha, de 5, apresentaram os sintomas diarréia, vômito e mal-estar. “Elas não chegaram a tomar o Tamiflu, indicado para quem apresenta os sintomas com até 48 horas após o diagnóstico, mas se tratam com soro e remédios para o controle da febre.” A esposa está com os indícios da gripe suína há nove dias, e a filha há sete. O diagnóstico que constatará se a duas estão com febre suína deve ficar pronto em menos de 48 horas.

Pela manhã, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que “não se pode fazer terrorismo e ficar vendendo pânico” e que “o momento é de cautela e prevenção.” Segundo ele, “se o governo brasileiro tem a coragem de avisar ao mundo, no mesmo dia, quando chega uma febr e aftosa, por que não iríamos avisar ao mundo que teve uma gripe suína no Brasil?”

Apesar de classificar como eficientes as medidas adotadas pelo Brasil, Rubén Figueiroa, gerente da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), afirmou que a situação é preocupante por três motivos: o vírus é novo, a cepa resulta da combinação dos vírus do porco, de aves e dos humanos, e nenhuma pessoa tem defesa específica para ela. O Brasil, segundo ele, assim como Argentina, Chile, México e Colômbia nã o possuem laboratórios com tecnologia capaz de confirmar os casos suspeitos. “Esses países só terão condições de atender essa demanda a partir desta sexta.”

O gerente da Opas, que é um braço da OMS nas Américas, garante que a organização não vai fechar fronteiras com os países que têm casos confirmados e nem restringir viagens a essas áreas. “A única coisa que pedimos, como medida preventiva, é que as pessoas com imunidade baixa não viagem para as nações com casos confirmados. Além disso, pedimos que a população não tome o remédio (Tamiflu) de forma indiscriminada. O medicamento não deve ser ingerido como uma vacina, para prevenir a gripe, e sim em casos devidamente confirmados”, orientou.

Controle ampliado
O Gabinete Permanente de Emergências decidiu ampliar o controle sanitário em voos vindos do exterior. Além de México, EUA, Canadá, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vai monitorar os casos suspeitos em viajantes de voos provenientes da Espanha, Reino Unido e Nova Zelândia. Ontem, o gabinete também definiu que os resíduos sólidos provenientes de aeronaves procedentes desses países serão classificados como resíduos do tipo A, ou seja, potencialmente infectantes. O descarte passará por procedimentos de inativação microbiológica antes da destinação final. Hoje, o gabinete deve definir a obrigatoriedade da veiculação dos informes sonoros a bordo da aeronaves vindas de áreas afetadas. As companhias aéreas TAM e Gol informaram que irão cumprir as orientações.


Ouça: podcast com Rubén Figueiroa, gerente da Organização
Pan-Americana da Saúde


São Paulo e Rio prontos para o pior

Ullisses Campbell

São Paulo — Os governos de São Paulo e do Rio de Janeiro já admitem a possibilidade da pandemia de gripe suína chegar com força total ao Brasil e começaram desde ontem a montar um esquema para atender casos suspeitos da doença. Os pacientes com sintomas que desembarcarem no Aeroporto de Galeão, no Rio de Janeiro, serão encaminhados a três hospitais, que já têm leitos reservados. Em São Paulo, oito hospitais estão preparados para enfrentar o mal.

Ontem à tarde, dois infectologistas do Hospital Emílio Ribas seguiram de São Paulo para o Rio para atender dois pacientes da mesma família que apresentaram sintomas da doença, depois de contato com mexicanos. Na capital fluminense, o governo estadual reservou 40 leitos de enfermaria e 20 na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) só no Instituto Estadual de Infectologia. Já o Hospital Universitário Pedro Ernesto ofereceu 20 leitos de isolamento.

Em São Paulo, um paciente continua fazendo exames para a testar se foi contaminado pelo vírus da gripe suína. Apesar de o Ministério da Saúde e o governador José Serra (PSDB) terem descartado essa possibilidade, o Emílio Ribas — onde o jovem encontra-se internado desde sábado — trata o paciente como suspeito de ser portador. O rapaz está isolado numa UTI de entrada restrita e todos os médicos e enfermeiros que têm acesso a ele usam máscaras e luvas de proteção. “De todos os sintomas que a doença, ele só não tem a febre forte”, disse o médico infectologista Carlos Cantagalo.

Observação
Segundo a coordenadora de Controle de Doenças da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, Clélia Maria Aranda, o paciente aguardando o resultado de exames. “Estamos com uma pessoa no Hospital Emílio Ribas que não cumpre a definição de caso de suspeita, mas foi um caso inicial e nós ainda aguardamos exames. E outras que foram avaliadas e foram dispensadas. Duas ficaram em observação, mas devem ser dispensadas em breve”, ressaltou.
< br>Além dos casos na capital, a Secretaria de Saúde de São Paulo notificou quatro no interior. “Fizemos um alerta para todos os serviços do estado de São Paulo para que, a partir da identificação de casos suspeitos, façam uma notificação imediata ao Centro de Vigilância Epidemiológica. Nós só temos notícias dessas pessoas no Emílio Ribas e três ou quatro no interior que não se confirmaram como suspeitas”, disse Célia Maria. É considerada suspeita uma pessoa procedente das áreas de risco, que tenha apresentado febre, dificuldade de respiração, tosse ou dor no corpo.

Até o fim da tarde de ontem, as autoridades do Rio haviam anunciado quatro suspeitas: o caso da mulher que veio de Miami e deu entrada com sintomas da doença no Hospital Copa D\'or, em Copacabana; e o de uma moradora de Volta Redonda, que viajou para Cancún (México) e está isolada. Dois casos incluem moradores do interior que teriam feito uma excursão à Cidade do México. “Estamos convivendo com a possibilidade de pandemia. Já estamos retardando cirurgias simples para termos leitos disponíveis”, afirmou o secretário estadual de Saúde do Rio, Sérgio Cortês.


Tira-dúvidas

O que é a gripe suína?
É uma doença respiratória altamente contagiosa que normalmente atinge porcos. A gripe suína atual é causada por uma mutação do vírus H1N1: os porcos foram contaminados com vírus de influenza aviária e de influenza humana, que, juntamente com o da influenza suína, reassociaram seus genes e se transformaram em um novo tipo. A mutação permitiu a transmissão entre seres humanos.

Como é transmitida?
De porcos para pessoa s: os infectados mantiveram contato direto com os animais doentes. Entre humanos: assim como a gripe comum, a influenza suína é transmitida pela tosse, espirro e contato com secreções de pessoas infectadas. Em ambos os casos, o vírus pode estar presente tanto no organismo do indivíduo quanto do porco, sem a doença se manifestar.

Pode-se contrair a doença comendo carne de porco ou derivados?
Não. Segundo o Ministério da Agricultura, não há registro de transmissão da gripe suí na para pessoas por meio da ingestão de carne ou derivados que tenham sido manipulados e preparados adequadamente. O vírus da influenza suína não resiste a altas temperaturas (de 70ºC a 160ºC). Deve-se evitar consumir tais alimentos crus.

Qual o tempo de incubação do vírus?
A média é de um a três dias, mas há casos em que pode se incubar por até duas semanas.

Quais os sintomas?

Febre alta repentina (superior a 38ºC), tosse, garganta inflamada, dores de cabeça, dores musculares e nas articulações, sensação de frio, cansaço, diarréia e vômitos. No entanto, podem também surgir desde infecções assintomáticas até pneumonias severas.

Quando é preciso procurar um médico?
Quando sentir os sintomas de gripe e tiver entrado em contato com pessoas ou animais possivelmente infectados. Tal atitude é recomendada para quem estava nas áreas onde já foram registrados casos da contaminação pelo vírus. Porém, recomenda-se que os pacientes não se dirijam a clínicas ou hospitais imediatamente, para evitar transmitir a doença. Em vez disso, as pessoas devem ficar em casa e entrar em contato com serviços de saúde locais.

Quais cuidados devem ser tomados desde já?
É importante evitar contato direto com pessoas doentes, assim como locais fechados onde haja grande circulação de pessoas, como escolas. Medidas simples, como cobrir a boca e o nariz ao tossir ou espirrar com um lenço descartável, lavar as mãos frequentemente com água e sabão e limpar maçanetas e corrimãos são recomendadas. É indicado não compartilhar alimentos, copos, toalhas e objetos de uso pessoal. Outra providência é evitar aglomeraões. O uso de máscara cobrindo o nariz e a boca diminui o risco de transmissão.

É necessário usar máscara?
Embora seja um meio de proteção, a máscara é indicada para quem vai passar algum tempo nos países afetados, para quem manteve — ou manterá — contato direto com um suspeito de estar com gripe suína, para os pacientes e para os responsáveis pela limpeza das aeronaves.

Recomenda-se adiar ou cancelar viagens internacionais?
A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que não é preciso alterar planos de viagens. Fechar fronteiras e restringir viagens seria inútil, porque o vírus já se espalhou.

É preciso suspender contatos com porcos?
É aconselhável minimizar o contato com animais doentes e informar qualquer caso às autoridades de saúde animal . Práticas de higiene são essenciais sempre que se mantém contato com o animal, principalmente durante e após o abate.

Qual a diferença entre a gripe suína e a comum?
Os sintomas são semelhantes, mas a gripe suína pode causar vômitos e diarréias mais graves. A gripe comum, que mata até 500 mil pessoas por ano, atinge principalmente idosos e crianças. A maioria dos mortos da gripe suína é formada por jovens e adultos, entre 25 e 45 anos.

Existe vacina para a gripe suína?
Não. A OMS está analisando o maior número possível de variantes do vírus influenza para criar uma vacina eficaz.

A vacina contra a gripe comum pode ser útil?
Ainda não está claro qual efeito as atuais vacinas podem ter para oferecer proteção contra o novo tipo do vírus, já que ele é geneticamente diferente. Os casos no México ainda não afetaram crianças de até 3 anos e adultos com mais de 50 — grupo que se vacina contra a gripe humana.

Existem medicamentos?
Alguns antivirais se mostraram úteis no tratamento, mas essa informação é insuficiente para que se recomende o uso de tais medicamentos como norma geral. Os médicos devem escolher o melhor tratamento com base no quadro clínico e na avaliação epidemiológica. Não é indicado se auto-medicar.

O clima afeta a transmissão?
O auge da incidência é no inverno. O clima frio e seco ajuda o vírus a sobreviver fora do organismo, pois as partículas de saliva levam mais tempo para evaporar.

Por que a Organização Mundial de Saúde está em estado de alerta?
Pela extensão geográfica dos casos registrados, pelo fato de vários seres humanos terem sido infectados com um vírus de origem animal e pela idade não habitual dos grupos atingidos. Desde a gripe aviária, em 2003, a gripe suína representa o maior risco de pandemia registrado.