Maternidade
Divididas entre o amor e a rejeição

Planejar uma gravidez, preparar a chegada do bebê, arrumar o quartinho e… entrar em pânico. Conheça mulheres que venceram a depressão pós-parto e saiba por que ela aparece. Homens também não estão livres

Arquivo Pessoal
Julien precisou que a mãe a carregasse ao psiquiatra para superar a rejeição a Giovana
 

O problema é relativamente comum, porém muitas vezes fica escondido sob o silêncio de quem tropeça nele no caminho de volta da maternidade para casa. A depressão pós-parto pega de surpresa de 15% a 20% das mulheres que acabaram de dar à luz, e consegue transformar o sonho da maternidade num verdadeiro drama.

Qualquer mulher pode desenvolver a doença, segundo a especialista em psicologia obstetrícia Alessandra Arrais, da Universidade Católica de Brasília. “É com um mulheres que desejavam muito um filho e planejaram toda a chegada dele sofrerem com o problema depois.” A baixa brusca de hormônios somada ao estresse do período pós-natal são dois dos combustíveis principais para que a doença chegue e se instale. “No período de pós-parto, a mulher tem 25% mais chances de desenvolver um quadro depressivo do que em qualquer outra fase da vida. São mudanças muito grandes e, às vezes, repentinas. Se ela não estiver preparada, sofre.”

Foram justamente essas revoluções por segundo que a maternidade traz que fizeram o emocional da decoradora Michelle Gomes, 33 anos, despencar depois do nascimento de Vicente, mesmo depois de uma gravidez tranquila e superplanejada. Como Michelle sempre foi muito apegada ao trabalho, em 2006, por recomendação médica, deixou o Brasil para passar uma temporada em Londres, longe do ritmo acelerado que levava por aqui. As férias estendidas foram para lá de ótimas — Michelle conheceu por lá o seu marido, Cláudio. Dois anos depois, desembarcava no Brasil com uma barriga de oito meses de gravidez e um marido a tiracolo. Uma vida completamente diferente da que se lembrava a esperava do lado de fora do avião. “Eu saí daqui solteira e sem filhos e voltei casada e grávida. Foi muita coisa misturada, me senti um pouco estranha.” Com tanta mudança, a chegada de Vicente, que deveria ser motivo de comemoração, virou um pesadelo.

“Eu tinha medo dele. Às vezes, ele se espreguiçava, fazia caretas e eu achava que ele queria me atacar”, recorda-se. “Eu tinha aquela ideia de bebê cheirosinho, deitadinho no berço, com o quarto decorado. Mas não é. O Vicente chorava muito, demandava muito.” Conforme a rejeição pelo filho tomava o lugar do carinho, a culpa que Michelle sentia por nutrir sentimentos tão contraditórios aumentava. “Era um conflito enorme. Pensava: ‘Como eu posso amar tanto meu filho e ao mesmo tempo sentir essas coisas ruins?’.” Dividida entre o amor incondicional de mãe e a sensação de que o filho era um peso ainda um tanto estranho na sua vida, a decoradora pensou até em fugir de casa. “Hoje chega a ser engraçado quando lembro, mas eram sentimentos muito intensos. Não queria estar ali, não queria ser mãe.”

A mesma dúvida sobre se a maternidade era o melhor caminho pairou durante meses sobre a cabeça da professora de inglês Julien Katko, 31 anos, quando Giovana nasceu, em 2008. O chororô que apareceu logo na maternidade — tido como normal pela obstetra de Julien — não foi embora. “Comecei a sentir uma angústia terrível. E uma dor no corpo que não passava. Mesmo que a Giovana estivesse dormindo, não conseguia descansar, e só chorava.” No auge da depressão, Julien chegou a pesar 56kg, medindo 1,70m. As visitas nunca eram bem-vindas. “Dispensava pelo interfone.” E a família, que curtiu a gravidez com Julien, não compreendia o que se passava.

“Antes de saber que eu estava doente, meu pai dizia que não entendia. Que eu tinha sido abençoada com uma filha ma ravilhosa e não estava dando valor”, diz. “É uma tristeza profunda e completamente vazia. Só quem teve depressão sabe do que estou falando.” O marido era a única pessoa com a qual Julien conseguia admitir que a chegada de Giovana, momento com o qual o casal tanto sonhara, não estava sendo um mar de rosas. “Rezava para ela dormir, porque era quando eu me livrava dela. Achava um saco trocar fralda, amamentar. Queria sair, trabalhar, ter a minha vida de volta.”

Julien nunca pensou em agre dir a filha. Por outro lado, mais de uma vez se pegou com pensamentos suicidas. “Mas não achava que era depressão, não sabia que podia acontecer comigo, tinha até um certo preconceito.”


Sinais de atenção
Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press
Apesar de não planejada, a gravidez de Greyce foi tranquila, mas tudo mudou quando ela se viu com Enzo nos braços: “Chorava junto com o bebê”
 

Nenhuma mulher está completamente blindada de se deparar com a depressão pós-parto. Para a psicóloga Alessandra Arrais, às vezes aquela que mais deseja o bebê é a mais suscetível a desenvolver a doença. “Quando a gravidez é muito planejada, pode ser que haja uma idealização do momento, e a mulher acaba colocando muita expectativa na criança. Pode achar que a vida só não está nos eixos ainda porque não tem um filho. Quando a criança chega, os problemas continuam, só que ela ainda precisa cuidar de um bebê.”

Um grupo merece atenção redobrada. De acordo com Fátima Bortoletti, coordenadora do setor de psicologia obstetrícia da Universidade Federal de São Paulo, as adolescentes, as perfeccionistas, as com antecedentes de depressão pessoal ou na família, as que não têm o apoio do pai do recém-nascido e as muito intelectualizadas devem fazer um trabalho preventivo na gravidez.

“O pré-natal psicológico é como o médico. Você faz um acompanhamento, trabalha o emocional dos pais, tenta amenizar a angústia e orienta sobre o que vai acontecer”, resume Bortoletti. Para Alessandra Arrais, um possível trauma pode ter a ver com o fato de que ninguém nasce sabendo ser mãe. “Às vezes, o primeiro bebê que ela pega no colo é o dela.”

Alessandra Arrais diz ainda que a gravidez tranquila também demanda atenção. “É um quadro em que a mãe está aparentemente bem, mas na verdade está negando a gestação, fingindo que não é com ela. Ela só pensa nisso quando a criança já nasceu.” Foi exatamente o que aconteceu com a estudante de direito Greyce Kelly de Moraes, 23 anos. Apesar do susto e da barra de ter que contar para os pais, bastante conservadores, Greyce teve uma gravidez feliz. “Ia para a faculdade, saía à noite, como sempre fiz.” Mas foi só na última noite na maternidade que a jovem se deu conta da responsabilidade que tinha pela frente. “A maternidade fica próxima da UTI e eu ouvia os pacientes gritarem. Aí percebi que não podia simplesmente sair correndo, como faria normalmente, e que a minha vontade não era mais só minha, que tinha uma criança que ia sempre precisar de mim.”

Nos meses seguintes, os sintomas pioraram e Greyce mal dava conta de pegar Enzo, hoje com 1 ano, no colo. “Chorava ele e eu. Passava horas chorando, sem entender o porquê.” Amamentar era uma tarefa que preferia não ter. “Cuidava dele porque tinha que cuidar. Achava o Enzo a criança mais feia do mundo, tinha vergonha das visitas.” O apoio da família e do namorado, Igor, foram fundamentais para ajudar a estudante.




Os sintomas

Quando chega, a depressão pós-parto dá sinais diferentes em homens e em mulheres. Como nem sempre a pessoa afetada procura ajuda, é bom ficar atento.

Elas

  • Sentem tristeza e vazio profundos
  • Choram sem motivo aparente
  • Sentem medo
  • Sentem-se incapazes de cuidar do bebê
  • Apresentam baixa autoestima
  • Não têm apetite
  • Têm dificuldade para dormir
  • Sentem-se abandonadas

    Eles
  • Queixam-s e de rejeição com frequência
  • De repente, têm mais interesse em atividades esportivas
  • Dedicam mais tempo ao trabalho
  • Ficam ausentes de casa
  • Podem apresentar irritabilidade excessiva
  • Eventualmente, podem ter relações extraconjugais



    Depois da dor, a alegria
    Arquivo Pessoal
    Michelle e Claudio planejaram a gravidez de Vicente, mas a chegada do bebê deixou a mãe dividida entre o amor incondicional e a sensação de que ele era um peso
     

    Pode soar até óbvio dizer que mães com sintomas de depressão pós-parto devem procurar ajuda médica imediatamente. No entanto, para quem está de frente para o problema, nem sempre fica evidente que aquela tristeza pós-nascimento, que ia “passar logo”, já se estendeu demais. “É muito difícil para a mulher admitir que está com depressão. Por isso, muitas vezes, a família e os amigos precisam prestar atenção”, explica o psiquiatra da Universidade de São Paulo (USP) Joel Ren nó Júnior, autor do livro Mentes femininas — a saúde mental ao alcance da mulher.

    Quase cinco meses depois do nascimento de Giovana e ainda sofrendo, Julien Katko precisou que a mãe marcasse uma consulta com uma psiquiatra e a buscasse em casa. “Eu falei que não ia. Imagina, eu não conseguia nem ir ao supermercado”, relata Julien. A médica logo percebeu o problema que angustiava a recém-mamãe. “Cheguei supermal, com a cara abatida de não dormir. Daí, comecei a falar tudo o que sentia”, conta. Como a depressão de Julien era grave, ela precisou desmamar Giovana por causa da medicação forte. Um ano e cinco meses depois, está aos poucos aprendendo a viver sem os antidepressivos.

    No caso de Michelle, o primeiro passo partiu do marido. “Um dia, ele disse que eu precisava procurar ajuda porque ele já não estava mais conseguindo lidar com a situação”, lembra. O tratamento da decoradora foi mais rápido: seis meses de psicoterapia associada aos antidepressivos. “Só de eu me l ivrar da culpa que sentia e entender que o meu ódio pelo Vicente era químico, e não verdadeiro, já melhorei. Aprendi a controlar esses sentimentos ruins que eu tinha”, conta. Segundo a psicóloga Alessandra Arrais, a melhora rápida com a terapia é natural. “Às vezes, tudo o que elas precisam é desabafar e saber que isso não acontece só com elas, que é uma doença, e que essa doença tem cura”, afirma a especialista.

    Com a ajuda necessária, Julien, Greyce e Michelle conseguiram deixar no p assado os sentimentos ruins em relação à prole. Greyce acha que voltou a ter a mesma alegria de antes da maternidade e já não consegue se enxergar sem o pequeno Enzo por perto. Michelle também não dá mais espaço a pensamentos ruins e só quer saber da felicidade de Vicente. Julien, que nos primeiros meses não queria saber de ficar em casa cuidando de Giovana, hoje sente uma pontada no coração quando precisa deixá-la para ir trabalhar. “O que eu sofri ficou para trás. Nem sei o que poderia ter fe ito com meu filho se não tivesse procurado ajuda”, diz Michelle. “O que eu tenho a dizer é que tem cura. Em um determinado momento, você acha que aquilo não vai acabar, mas acaba. As mães com depressão precisam acreditar nisso”, reforça Julien.




    Saiba diferenciar

    Baby blues
  • No baby blues, ou blues puerperal, os sentimentos de tristeza aparecem logo nos primeiros dias após o parto, em função da debilidade emocional do período — com a retirada da placenta, a mulher tem uma queda muito brusca de progesterona, o que pode ocasionar um desequilíbrio psicológico. Até 80% das mulheres estão sujeitas a passar pelo blues puerperal. Mas, atenção: ele normalmente desaparece em 10 dias.

    Depressão pós-parto
  • Pode apa recer até um ano depois do nascimento do bebê. De 15% a 20% das mulheres podem desenvolver o quadro que, ao contrário do baby blues, permanece por mais de duas semanas. Os sintomas variam da hiperatividade à prostração e o tratamento, geralmente, é uma combinação de psicoterapia e antidepressivos.

    Psicose pós-parto
  • O quadro psicótico é extremamente raro. Estima-se que apenas duas em cada mil mães desenvolvam a doença. Ela caracteriza-se pelo rompimento total com a realidade, como alucinações visuais e auditivas, agitação psicomotora, risco de suicídio e, eventualmente, de infanticídio pela mãe. Em alguns casos mais raros, a depressão pós-parto não tratada pode evoluir para uma psicose.

    Fonte: Fátima Bortoletti, coordenadora do setor de psicologia obstetrícia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)



    Eles também sofrem

    Não se espante se um dia ouvir uma história de um pai que sofre com a depressão pós-parto — e não é a da sua mulher. As tantas mudanças que um bebê traz para a vida a dois também afetam os homens. Uma revisão de estudos publicada numa revista especializada em medicina nos Estados Unidos concluiu que de cada 10 homens, um tem a doença. Segundo Rennó Júnior, psiquiatra da USP, alguns estudos mostram que, entre o terceiro e o sexto mês do bebê, os homens têm duas vezes mai s chance de ter uma depressão que em qualquer outro período da vida.

    “Eles se cobram da função de cuidar do bebê, não só financeiramente, mas também afetivamente. Esse medo, às vezes, faz com que eles entrem em colapso.” Além da cobrança, o susto conta. Ao contrário das mães, que têm nove meses para se acostumarem com a ideia de um bebê, alguns pais só se dão conta da paternidade quando pegam o filho no colo. Outro fator para o qual Rennó Júnior chama a atenção é a queda na taxa de te stosterona no período em que o rebento vem ao mundo, mas essa hipótese ainda está em análise pela ciência. “Acredita-se que o homem tenha uma queda de cerca de 25% da testosterona no pós-natal, até mesmo para que ele se permita criar laços afetivos com o filho. E, assim como a queda de hormônios pode influenciar a depressão nas mulheres, é possível que tenha um papel determinante nos homens.”

    A diferença entre as duas manifestações de depressão pós-parto está nos sintomas. Enquanto mulheres têm crises repentinas e inexplicáveis de choro, perdem o sono e o apetite e temem não conseguir cuidar do bebê, os homens ficam irritados, sentem-se negligenciados pela mulher, tendem a aumentar o ritmo de trabalho e podem buscar conforto em relações extraconjugais. Não raro, uma crise no casamento no pós-parto está relacionada à depressão. “Muitas vezes, homens com depressão têm mulheres com depressão. Uma coisa leva à outra e, inclusive, casamentos acabam por causa disso”, alerta.



    Editora Prestígio/Reprodução
     

    Para ler

    Depois do parto, a dor — Minha experiência com a depressão pós-parto
    Autora: Brooke Shields
    Editora Prestígio
    R$ 41,90




    Serviço

    O Hospital Planalto tem um serviço gratuito de pré-natal psicológico com futuras mamães. O grupo se reúne semanalmente, durante oito semanas, sob orientação da psicóloga Bárbara Fragale. Mais informações: 8465-6434.