
Uma superbactéria resistente a todos os
antibióticos disponíveis no mercado pode se espalhar pelo mundo, desencadeando
uma pandemia com consequências ainda não conhecidas. Na edição de ontem da
revista especializada Lancet, um grupo de cientistas alertou que uma mutação
identificada em dois tipos de enterobactérias — encontradas no intestino e
contaminada pelas fezes —, a Klebsiella pneumoniae e a Escherichia coli
(E.coli), deixou os microrganismos ainda mais fortes e que as chances de elas
se espalharem pelo globo são reais e preocupantes.
O gene NDM-1 foi
identificado no ano passado pelo professor Timothy Walsh, da Universidade de
Cardiff, na Inglaterra, que confirmou a presença do NDM-1 na Klebsiella
pneumoniae e na E.coli. Ele foi detectado em um paciente sueco internado em um
hospital da Índia. De acordo com o estudo publicado na Lancet, a mutação deixou
as bactérias tão resistentes que nem o carbapenem, grupo de antibióticos capazes
de matar o s micro-organismos mais potentes, conseguiu eliminá-las.
Com
o turismo cada vez mais globalizado, as chances de as enterobactérias se
espalharem são grandes. Até agora, elas se concentravam na Índia, em Bangladesh
e no Paquistão, mas chegaram à Inglaterra depois de terem sido transmitidas a
turistas que tomaram água contaminada quando viajavam para esses países. Os
pesquisadores coletaram amostras da superbactéria em pacientes internados em
diversos hospitais nas cidades indianas de C hennai e Haryana e de britânicos
que estiveram na Índia, entre 2007 e 2009. As amostras foram testadas em
laboratório e indicaram a presença do gene NDM-1.
Previsões
Os exames mostraram que o gene mutante estava no organismo de 44 pacientes
de Chennai, 26 de Haryana, 37 moradores da Inglaterra e em 73 outras pessoas em
Bangladesh, na Índia e no Paquistão. O NDM-1 é mais frequente na E.coli, a
principal causa de infecções do trato urinário e de um tipo de pneumonia. Os
pesqu isadores alertam que o gene se instala nos plasmídeos, estruturas de DNA
que podem facilmente ser copiadas e transmitidas para diversos outros tipos de
bactéria. “Isso sugere uma alarmante possibilidade de o gene se espalhar e
modificar toda a população de bactérias”, disse ao Correio Timothy Walsh.
Segundo o professor de microbiologia, uma das razões de as
enterobactérias terem se tornado tão resistentes é a banalização do uso de
antibióticos. “Em um artigo recente, Abdul-Ghafur (ati vista de uma organização
que luta contra a malária) afirmou que o uso de antibiótico não prescrito pelos
médicos está se espalhando na Índia. Isso faz com que as bactérias se tornem
mais fortes e nos faz pensar que o problema do NDM-1 vai piorar substancialmente
em um futuro próximo”, diz Walsh.
O turismo estético — muitas pessoas
vão à Índia e ao Paquistão para fazer cirurgias plásticas porque os
procedimentos são mais baratos nesses países — preocupa Walsh. “Nos últimos
anos, a Índia está recebendo pacientes não só da Europa, mas também das
Américas, para cirurgias cosméticas”, acrescenta o pesquisador. E ele lembra que
os hospitais são um verdadeiro celeiro para bactérias e vírus.
Prevenção
O professor de patologia e medicina laboratorial
Johann Pitout, da Universidade de Calgary, no Canadá, leu o artigo de Timothy
Walsh e faz uma recomendação aos pacientes que vão se submeter a algum
tratamento médico na Índia. “Antes de voltar a seus países, eles devem fazer
exames para detectar a presença do gene mutante. Se o tratamento para essa
emergência de saúde pública for ignorado, cedo ou tarde a comunidade médica será
confrontada com outras enterobactérias resistentes ao carbapenem, o que
resultará na impossibilidade de curar os pacientes e terá como consequência
aumentos substanciais nos custos com cuidados médicos”, disse Pitout ao Correio.
Segundo o médico é preciso fazer uma varredura com exames específicos
que identifiquem o NDM- 1. “Todos devem se submeter a uma espécie de
escaneamento do organismo antes de embarcar”, aconselha o professor.