Pesquisadores anunciam que conseguiram compreender a composição
molecular do micro-organismo, causador de doenças como a faringite e a
conjuntivite. Além de desenvolver drogas contra o agente, cientistas esperam
modificá-lo e usá-lo no tratamento de diferentes males
Paloma Oliveto
Scripps Research Institute/Divulgação
A estrutura do adenovírus: alta capacidade de
penetrar as células pode ser aliada de novos tratamentos
Quase todo mundo pode dizer que, em alguma fase da vida, foi vítima
de um grupo de micro-organismos extremamente resistentes e contagiosos,
conhecidos como adenovírus humano. Trata-se de um conjunto de vírus de DNA duplo
que ataca principalmente as vias aéreas superiores, mas também é responsável por
infecções gastrointestinais e dos olhos. Entre as inúmeras doenças provocadas
pelos mais de 50 sorotipos que afetam os humanos, estão a faringite, a
conjuntivite, a gastroenterite, a otite e as infecções do trato urinário.
Uma das dificuldades em se desenvolver medicamentos eficazes contra o
adenovírus é que, até agora, sua estrutura não era completamente conhecida. Um
grupo de cientistas, porém, anunciou na edição de hoje da revista Science que
conseguiu, pela primeira vez, revelar a verdadeira “face” do vírus. Com isso,
poderão ser desenvolvidas novas terapias gênicas(1) e drogas
antirretrovirais. Não foi um trabalho fácil — os cientistas precisaram de 10
anos para decifrar a estrutura do adenovírus. Mas, no fim, podem-se orgulhar da
façanha de terem entrado para a história como os responsáveis pelo maior
complexo em resolução atômica já revelado, composto por nada menos que 1 milhão
de aminoácidos.
Descoberto pela primeira vez em 1950, o adenovírus é a
maior classe de agentes causadores de doenças, incluindo a gripe comum. Apesar
de o corpo conseguir eventualmente lutar contra a infecção e eliminar o vírus,
em crianças e pessoas com sistema imune comprometido, o risco de complicações é
grande. Não há remédios contra o agente, de modo que o tratamento, atualmente,
se foca nos sintomas.
Ao longo das décadas, diversos cientistas
procuraram explorar algumas das propriedades do vírus, como sua estabilidade e
habilidade de infectar muitos tipos diferentes de células, na busca da cura para
diversas doenças. A esperança é aproveitar esse potencial de se infiltrar para
modificá-lo e fazer com que ele passe de bandido a mocinho e seja usado como
vetor para levar ao interior celular terapias genéticas.
“Nós aprendemos
uma boa quantidade de coisas importantes sobre o vírus a partir de sua
estrutura. Isso é muito importante se você quer fazer a reengenharia do vírus
para o desenvolvimento de terapias gênicas”, disse ao Correio o professor Glen
Nemerow, cientista do Centro de Pesquisas Scripps, na Califórnia, e principal
autor do estudo. Ele conta que, em estudos mais antigos, o adenovírus já foi
usado em testes para o tratamento de fibrose cística, doença genética que
provoca obstrução das vias aéreas. “Mas esses testes falharam porque os
cientistas não compreendiam a biologia e as interações celulares do vírus com
seu hospedeiro para conseguir usá-lo de forma apropriada.” Ainda assim, o
adenovírus é usado, atualmente, em 25% dos ensaios clínicos de terapias gênicas
— a maioria, para tratar o câncer e doenças cardiovasculares.
Longo
caminho Para decifrar de vez a estrutura molecular do adenovírus,
Nemerow e seu colega Vijav Reddy, também do Centro de Pesquisas Scripps,
começaram a estudá-la ainda em 1998. Eles usaram uma técnica conhecida como
cristalografia de raios X, a mais indicada para investigar estruturas atômicas
complexas. Nesse método, os cientistas produzem grandes quantidades da proteína
ou do vírus estudado e fazem com que adquiram a forma de um cristal. O cristal,
então, é colocado em frente a um feixe de raios X, que se difunde em várias
direções ao atingir os átomos cristalinos. Baseados nos padrões de difração (o
desvio da luz ao passar por um objeto), os cientistas conseguem reconstruir o
formato da molécula original.
Muitos passos nesse processo foram um
desafio para a dupla. O primeiro deles foi produzir os cristais, algo difícil de
fazer com o adenovírus, que possui estruturas fibrosas que interferem na
cristalização. Depois de anos desenvolvendo técnicas para transformar o vírus em
cristal, Nemerow e Reddy novamente falharam: apesar de cristalizado, o vírus
não provocava a difração quando exposto aos raios X. O próximo passo foi tentar
desenvolver cristais de melhor qualidade, o que levou quase uma década para
acontecer.
Enfim, 12 anos depois do primeiro experimento, os cientistas
conseguiram decifrar a imagem do adenovírus. Entre as principais descobertas
provenientes da construção da estrutura molecular, Nemerow e Reddy identificaram
os locais onde o vírus é mais resistente, assim como as regiões nas quais ele
se torna mais maleável. “O vírus precisa ser estável para sobreviver no
ambiente, mas também tem de ter a habilidade de se desmontar quando entra na
célula. E a estrutura revelou os locais onde isso acontece”, conta Nemerow.
Agora, segundo cientista, será possível usar essas informações para desenvolver
drogas — por exemplo, compostos que evitem que o adenovírus se desintegre e
entre na célula, infectando-a.
1 - Problemas hereditários Também conhecida como geneterapia, trata-se de uma técnica em que genes são
inseridos nas células e nos tecidos para se tratar determinada doença,
principalmente as provocadas por problemas genéticos e hereditários. Uma
molécula transportadora, chamada vetor, precisa ser usada para que o gene
terapêutico seja enviado até as células-alvo do paciente.