Revolta por 350 mil
porcos
Cristãos Coptas entram em
choque com a polícia no Cairo, ao impedir que seus animais fossem
levados para o abate
Rodrigo Craveiro
“Se você tivesse que escolher entre os
porcos e seus filhos, o que faria?”, pergunta à reportagem, pela
internet, a médica egípcia Awatef Ahmed, de 32 anos. A moradora do
Cairo tentou justificar a matança de 350 mil porcos — a polêmica
medida foi ordenada pelo governo para tentar conter a disseminação
do vírus H1N1. “Não podemos controlar esta infecção, exceto se
destruirmos sua fonte”, acrescentou Ahmed, que é muçulmana e mora
próximo ao aeroporto, no bairro de Masr Algadi dah, não muito
distante de Manchiyet Nasr. O enclave de cristãos coptas — que
formam entre 6% e 10% dos 80 milhões de egípcios —, situado no
nordeste do Cairo, também é reduto de criações de suínos, a base da
subsistência desse povo que vive no limite da pobreza. O domingo foi
dia de violentos confrontos entre os coptas e os policiais, que
tentaram capturar os animais e levá-los para três máquinas
especiais, recém-adquiridas, com capacidade para sacrificar até 3
mil porcos por dia.
De acordo com o jornal The Egyptian
Gazette, o governo egípcio começaria a abater os 350 mil animais.
“Os porcos serão checados por um comitê do Centro de Estudos
Nacionais do Egito antes do sacrifício. Caso apresentem algum tipo
de doença, serão incinerados em fornos instalados dentro dos
frigoríficos. “Nós estamos no estágio 5 (da escala de alerta
pandêmico da Organização Mundial de Saúde). A questão agora é
humana, não animal”, declarou Abdel Rahman Shahin, porta-voz do
Ministério da Saúde, ao justificar a matança. Mas é também
religiosa, ao contrapor os suinocultores cristãos e os muçulmanos,
que não comem carne de porco.
Cerca de 400 coptas receberam
a polícia com pedras e garrafas. Decididos a fazer vigorar o decreto
do governo, os militares responderam com gás lacrimogêneo e balas de
borracha. Barricadas feitas de lixo foram erguidas pelos
manifestantes nas ruas e incendiadas. Pelo menos 12 criadores de
porcos e três militares ficaram feridos. Os confrontos de rua força
ram o governo a adiar para hoje o confisco dos animais e a prometer
indenizações financeiras aos criadores.
Saudáveis
“Nossos porcos são saudáveis. Eles são nosso dinheiro e não têm
doenças”, reclamou Adel Ishak, que alimenta seu rebanho com o lixo
coletado nas ruas, em entrevista ao jornal britânico The Times. “Nós
gostaríamos de lembrar a Hosni Mubarak (presidente do Egito) que
todos somos egípcios. Para onde ele quer que nós vamos?”,
acrescentou Gergis Faris, outro criador de porcos de 46 anos. “Se
você visse as condições dos criadouros suínos no Egito, verá que
eles não são saudáveis. Há riscos, mesmo sem a gripe suína. Por isso
as pessoas estão ficando com medo”, afirmou à agência de notícias
Reuters Magdy Rady, porta-voz do Ministério da Saúde.
“O
abate de porcos é a coisa certa a se fazer”, disse ao Correio a
professora egípcia Abeer Mohamed Safwat. Questionada sobre o fato de
os cristãos dependerem economicamente do comércio dos suínos, ela se
esquivou: “Mais importante é a saúde humana”. Até o fim da noite de
ontem, o Egito não havia reconhecido nenhum caso de gripe suína. “As
pessoas aqui estão muito tensas e precisam seguir as medidas das
autoridades sanitárias”, comentou. Abeer acredita que não existe a
possibilidade de a crise se intensificar e ganhar as dimensões de um
conflito religioso. “As pessoas aqui vivem em paz”, garantiu. Ela
contou que não presenciou os atos de violência na colina de
Manchiyet Nasr.
Existe o t emor de que a decisão de
sacrificar os animais abra um precedente para outras nações. A
medida foi duramente criticada no Ocidente e a Organização Mundial
de Saúde (OMS) reiterou que não existem provas da transmissão do
H1N1 do porco ao homem, apesar de a via de contágio inversa ter sido
detectada no Canadá (leia abaixo). Cada suinocultor copta do Egito
receberá uma compensação de mil libras egípcias (cerca de R$ 384
reais) por animal morto. |